sábado, 21 de janeiro de 2012

Pai nosso que estás nos céus

Deus Pai, é nosso paí. Se é nosso pai, isso inclui o fato de que ele é meu pai. Mas Jesus ensina que oremos chamando-o de nosso, não de meu. Se o pai é nosso, porque os motivos que me levam a buscá-lo são só os meus, e não os nossos? Quando muito, orações alcançam a dimensão coletiva da família, mas a regra é a relação individualizada, principalmente quanto àquilo que ao Pai se pede. Todo o restante da oração de Jesus é feita na primeira pessoa do plural, nós assim a recitamos mas parece que não percebemos esse fato, e não consideramos suas implicações.

Deus está nos céus, Deus não está aqui. Esse é o sentido da afirmação de Jesus: Deus não está aqui. É possível alcançá-lo por meio da oração, mas ele não está aqui. Isso nos induz a pensar que há um grande espaço de protagonismo para nós, que como se vê em outras falas de Jesus não é voluntário, mas obrigatório a quem o segue. No meio disso, no entanto, Deus é um pai que se apresenta e que age. Deixo para a teologia decidir se ele reina mas não governa, ou se reina e governa, ou o quanto reina e o quanto governa. Para nós resta saber que estando ele ausente é grande nossa responsabilidade, e que esse ausente de alguma forma também se faz presente.

No próxims posts vou refletir sobre a vinda do reino e a vontade de Deus. Até hoje não fiz uma reflexão com alguma consistência sobre a santificação do nome de Deus, por isso, essa frase fica para o fim.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Por um Natal sem Jesus

Estamos constantemente tentando incluir Jesus no Natal... Mas, o espírito de Jesus de Nazaré já está lá, na ideia dos presentes que se dão. O consumismo da época tem uma boa causa: não é próprio, é para o outro. Além disso, dá trabalho para muita gente, movimenta a economia, gera muitas ações de solidariedade, enfim, aquele espírito generoso de Cristo é o que impulsiona a festa.

No entanto, o Natal ganhou uma dimensão de universalidade que faz com que da festa participem os não-cristãos. Assim sendo, creio que seria adequado desteologizar o Natal. Quem quiser comemorar o nascimento de Jesus, que o faça uma semana antes, ou uma semana depois - eu participo, inclusive. Não precisa ser no dia 25, data na qual o Natal se impôs como uma festa que transcendeu o presépio.

Esse Natal que comemoramos hoje é uma festa secularizada, que se originou com a celebração do nascimento de Jesus. Se a figura de Jesus foi esquecida ao longo dos anos, a ponto de querermos a todo o tempo reinseri-lo na festa, o espírito dele permanece presente. Mais importante do que falar ou lembrar o nome de Jesus é seguir o exemplo de Jesus - no Natal fazemos isso, em larga escala. Está bom, assim.

Alguns autores estão dizendo que a secularização não é o fim do cristianismo, mas um processo interno dele. Mas, isso já é prosa para um outro post.

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

O Reino de Deus é o Reino sem Deus

Nossa, ainda bem que ninguém lê meu blog... Principalmente as pessoas para quem faria sentido que ele fosse escrito: os religiosos de origem protestante.

Ontem me veio essa ideia à mente: o Reino de Deus é o Reino sem Deus. Essa ideia se baseia em duas percepções que se cruzam e se fundem.

A história do reino de Israel no Antigo Testamento é a história do Deus de Israel, que comanda os eventos de forma magnífica, conforme este povo o busca ou dele se afasta. O rumo da história é definido como consequência da obediência ou da desobediência dos israelitas à Lei de Israel. Quando surge o novo reino, a Pedra do sonho de Nabucodonosor que substitui a antiga conformação dos reinos, que é aquele que o anuncia - Jesus - diz que esse reino tem outra natureza, e que não é deste mundo. Passo seguinte é verificar que Deus não mais atua na história como consequência da obediência ou desobediência de um povo, qualquer povo que seja. Essa é a primeira percepção.

A segunda percepção diz respeito ao protagonismo individual que surge, do cidadão do reino instado a amar: é ele que constrói o reino por meio da obediência e da prática da vontade de Deus: "(...) venha o teu reino, seja feita a tua vontade (...)". Conquanto ainda esteja presente o elemento ordenador da história, que é a obediência, a implantação do reino não surge como benção de Deus para o obediente, mas, como consequência de seus atos. Daí que o protagonismo humano se torna efetivamente mais importante.

Se isso faz algum sentido, passou-se de um conceito de conta-corrente, na qual a obediência gerava bençãos de prosperidade (crédito) ou maldição e exílio (débito), para uma situação na qual é a consequência da obediência que produz o ambiente que pode ser chamado de reino de Deus. O indivíduo é reponsável pelo estabelecimento do reino. É o reino de Deus sem Deus, é o reino no qual sua vontade se estabelece pela busca do homem que ama Jesus de Nazaré.

Faz sentido?

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Salvação e interpretação

Lendo Vattimo, pude compreender melhor a ideia de porque a salvação anunciada em Jesus pode ser considerada um evento hermenêutico: "Cristo é a interpretação viva do sentido da lei e dos profetas (...) muito embora a salvação esteja essencialmente 'completada' com a encarnação, paixão, morte e ressurreição de Jesus, ela ainda espera uma complementação ulterior".

Além disso, diz Vattimo, "em um sentido mais imediato (...) nos referimos à pregação e à explicação pastoral dos textos sagrados aos fiéis". Nessa tradição cristã, demonstra-se com clareza a natureza interpretativa da salvação.

Se a história da salvação não está completa, mas vai se desenrolando e se estabelecendo na história, também a interpretação continua sendo necessária. Ao tempo em que os acontecimentos salvíficos se sucedem, é indispensável compreendê-los.

Para compor melhor essa noção de progressão e continuidade hermenêutica seria muito útil considerar que a interpretação começa na própria Bíblia, em tudo aquilo que é posterior a Jesus, particularmente nas cartas de Paulo. De fato, Paulo olha para Cristo e interpreta sua vida e obra, em modo muitas vezes diverso da própria pregação do Senhor.

Assim, compreendendo que os escritos paulinos são, essencialmente, hermenêuticos, e não fonte inerrante, abrir-se-ia melhor o caminho para o desenvolvimento contínuo da interpretação, ao longo dos tempos.

sábado, 14 de maio de 2011

Fé e contradições

Os fundamentalistas se esforçam para demonstrar que a Bíblia é infalível, que não há nela erros nem contradições. Publicam livros a esse respeito. Nessa sanha, buscam novas exegeses no hebraico e no grego para encontrar significados para as palavras dos textos que nos confundem. É algo que equivale, mais ou menos, a justificar Deus pelos erros que cometeu ao produzir um livro que deveria ser perfeito.

Esse procedimento leva àquilo que é conhecido como dialética do iluminismo: produz o efeito contrário que se supunha que aquele conjunto de conhecimentos produziria! Isso porque a fé surge em meio às dúvidas, às contradições, às incoerências. Se a Bíblia se estabelece como um livro testado e comprovado contra quaisquer falhas - que é o produto desse procedimento dos fundamentalistas - ela deixa o campo da fé, da espiritualidade, e passa a ser ciência.

Às tentativas de descrédito da Bíblia não podem ser opostas ações que tirem dela seu caráter, sua essência. É bom que Cristo seja mencionado apenas nos evangelhos e somente de maneira vaga em outros livros. É bom que os evangelhos guardem algumas contradições. Pois é esse o ambiente no qual surge a fé.

Eu creio, sem porquês. Simplesmente creio, e fiz de Cristo o Senhor de minha existência.

terça-feira, 10 de maio de 2011

Buscando novas interpretações

Segundo a teologia protestante, a cruz de Cristo é o ato final do projeto de salvação de Deus para o homem, que, mediante a entrega de seu Filho livra o ser humano da condenação. Proponho que a cruz seja vivenciada como o elemento inicial da proposta de Deus para salvação do mundo, constituindo-se, fundamentalmente, em exemplo a ser seguido: toda salvação depende de uma cruz.

O indivíduo é o objeto do amor de Deus e aquele para quem o plano de salvação foi arquitetado. Sua salvação depende de decisão pessoal, ou de ser um escolhido - conforme a vertente agostiniana ou arminiana. Proponho que o objeto do amor de Deus seja deslocado para a humanidade, e que o indivíduo seja compreendido como elemento que colabora para a salvação dessa coletividade, pois a ideia de uma redenção individualizada não condiz com o conceito de reino de Deus.

A salvação e a vida com Deus dependem da consciência quanto aos valores bíblicos e de uma tomada de posição quanto a isso. Proponho que se admita que o ser humano pode ser um cidadão do reino de Deus sem nem mesmo tomar conhecimento da existência de um reino e do Senhor desse reino, bastando, para isso, que seja orientado para e viva conforme os valores do reino. Se a redenção pode ser alcançada independentemente da consciência, perde relevância o conhecimento e a apologia da verdade, pois o valor maior que se sobressai é a marca mais característica do reino: a justiça.

A igreja é compreendida como a reunião dos indivíduos que aceitaram a mensagem da salvação, ou que estão no processo de aceitar, e tem como objetivo espalhar essa mensagem na busca por novas adesões. É uma instituição divina fundada por Cristo. Proponho que se enxergue a igreja como a reunião de pessoas que querem servir ao próximo, e, assim, tornarem-se semelhantes a Cristo, um ente que não se entende como tendo origem divina, mas, fruto da intenção humana de seguir a Jesus.

segunda-feira, 18 de abril de 2011

"Para quê" ou "O que vou fazer com isso?"

Diante das situações críticas, em particular, muitas vezes nos perguntamos porque estamos passando por aquilo. Como a pergunta acerca da razão implica uma certa revolta e rebeldia, alguns viram a necessidade de mudar a pergunta para um funcionalista "para quê"?

Acreditar que tudo tem um "para quê" corresponde a acreditar no destino, ou na vontade soberana de Deus que governa o universo em todos os seus detalhes. No fundo, uma crença não difere da outra.

Talvez a melhor opção seja: o que vou fazer com isso, ou, o que vou fazer a partir disso? Supera-se a visão funcionalista da existência, na qual tudo tem que ter e de fato tem um motivo que, ao final, restará comprovado diante de mim e justificará a ação a princípio incompreensível de Deus.

É muito difícil viver assim. Mais prático é entender que ficamos doentes porque todos ficam doentes, ou que pegamos uma chuva enorme porque a chuva cai sobre os bons e sobre os maus. Valeria a pena viver a vida assim pela simples praticidade, mas a simples verdade é que ninguém está livre de ficar doente.

segunda-feira, 14 de março de 2011

De novo o mistério da fé

Nos últimos anos, uma afirmação de Jesus, em particular, tem tomado muito tempo de minhas reflexões teológicas: "seja feito conforme a tua fé".

Aqui, se tivermos coragem de admitir, veremos que a fé é colocada como um elemento autônomo, sem objeto. Não se trata de fé em Cristo, trata-se apenas de fé. Essa é uma contestação perturbadora: o próprio Cristo não exigiu que a fé que move montanhas fosse fé nele, Cristo.

Além disso, e talvez seja necessário ainda mais coragem para admitir, a fonte do poder que resolve o problema não é ele, Cristo, mas aquele que tem fé. Isso está implícito também no texto que fala da fé que move montanhas.

É assim que enxergo os textos. Talvez os doutores em grego possam me provar o contrário. No português me parece bem claro: Cristo não tem uma visão cristã sobre fé - como de resto, não tem também sobre outras questões.

Dois alertas: eu preferia não chegar a tal conclusão, pois essa fé autônoma é o objeto do desejo da autoajuda, e se encaixa bem com a teologia da prosperidade; e, a reflexão aqui não tem o objetivo de minimizar o poder de Cristo.

sábado, 29 de janeiro de 2011

Eis aqui a tua igreja

Essa afirmação explicita uma presunção dos crentes: que Deus tenha criado essa organização, e que ela seja seu instrumento para agir na Terra. Será isso mesmo?

Essa presunção contém uma dificuldade: se a igreja é de Deus, qual igreja é de Deus? Porque, se a igreja x é de Deus, isso implica, necessariamente, que aquelas que estão em contradição a ela não sejam de Deus. Ou será que cada uma tem um pouquinho de inspiração divina, e a igreja, de fato, seja essa elaboração etérea chama de igreja invisível?

Não vou seguir com essa argumentação, porque o propósito dela é apenas demonstrar a dificuldade que existe em considerar que a Igreja seja uma instituição divina. Nessa linha, vale argumentar, inclusive, que a infalibilidade papal é um conceito em sintonia com a ideia da divindade dessa organização.

A presunção de divindade faz mal à igreja. Se se considerar que ela é uma organização humana que se propõe a servir a Cristo, possivelmente se tornará mais saudável.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

O desafio da Teologia

Teologia Sistemática, em si, é uma ideia contraditória. Como sistematizar Deus? A explicação tangenciada de que, na verdade, trata-se de conhecimento sobre Deus, e não de Deus em si, não resolve o problema. Em ultima instância, quer-se sistemativar Deus. Se Deus pode ser compreendido de maneira sistemática por alguém, aquele que o sistematizou tornou-se maior do que Ele.

Seria um esforco hercúleo sistematizar teologicamente os sinóticos. Jesus não se preocupou com teologia. Os textos daqueles evangelhos mostram que a preocupação dele era a vida. Seus discursos versam sobre questões práticas, cotidianas. Deixou de lado qualquer reflexão teológica e muito menos se preocupou em tratar de qualquer questão de maneira sistemática.

O que se considera como virtude - a construção do conhecimento sobre Deus - talvez não passe de fraqueza: não conseguimos viver imitando-o, queremos segui-lo se pudermos entendê-lo - ou algo assim.

domingo, 8 de agosto de 2010

Pode-se encontrar Jesus até numa igreja

Mesmo no emaranhado de conceitos absurdos e práticas alucinadas das igrejas, Cristo se deixa encontrar. Talvez naquele local onde mais se fale no seu nome ele seja menos conhecido e seguido. Apesar disso, se alguém ali desejar encontrá-lo, ele não se furtará de se apresentar.

domingo, 24 de janeiro de 2010

Haiti

Não sei se ainda há algo mais a se dizer acerca da tragédia do Haiti.

Reclamo que muitas igrejas, agora de manhã (hoje é domingo, dia 24/1) não irão mencionar o assunto, nem mesmo para fazer uma oração pelo povo sofrido daquela terra. Fico feliz ao ver inúmeras iniciativas entre as igrejas para não só enviar doações como profissionais - principalmente da área da saúde.

Vejo, mais uma vez, a arrogância dos norte-americanos e sua dificuldade - ou desinteresse - para trabalhar sob a coordenação de outros, ou mesmo em parceria. É lamentável. Mas gostaria de deixar escrito comentário que tenho feito repetidamente: quando essa potência dominante forem os chineses teremos saudade dos norte-americanos.

Estou preocupado com o dinheiro que está chegando no Haiti - grande parte dele vai correr pelo ralo da corrupção das autoridades locais. Estamos tentando fazer algo para colaborar nesse sentido, ou seja, uma iniciativa de controle desse fluxo de recursos internacionais, condicionado pelos doadores. Dificilmente, as autoridades locais teriam interesse nisso.

Não ouvi, nesse caso, tantas imprecações a Deus, como em outras situações semelhantes. Houve quem associasse a tragédia à prática do vodu entre aquele povo. De maneira geral, no entanto, pelo menos no universo próximo, essas reflexões sem sentido foram deixadas de lado, e a pergunta principal, para quem as fez, foi: como posso ajudar?

Estou lendo a Teologia da Esperança, de Moltmann. Boa leitura para enfrentar essa dor profunda.

sábado, 5 de dezembro de 2009

Ainda sobre Brunelli

Temos que parar de vociferar contra Brunelli e avaliar o que está errado. Estou revoltado com ele, sem dúvida, não gosto dele e nunca gostei.

Mas, essa ira é pouco produtiva e não nos leva a lugar algum. Brunelli é simplesmente o produto de nossos enganos - nada mais.

O que temos que fazer é rever a caminhada - a teologia em particular.

Discursos moralistas e condenatórios não farão efeito algum; o protestantismo, como está, não tem mais o que oferecer.

O problema é de fundo, e precisamos de coragem para enfrentar os fatos e suas causas.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Brunelli e o ocaso do protestantismo

A questão que coloco é saber se Brunelli é produto ou negação do protestantismo. Se ele é produto, torna-se necessário rever o protestantismo, se ele é a negação, expurga-se Brunelli. Defendo que Brunelli seja produto, consequência natural da exploração extrema dos princípios fundamentais do protestantismo.

O indivíduo Brunelli, por si, não haveria de determinar a revisão do protestantismo - isso não faria sentido. Brunelli é tomado aqui como o emblema de uma geração evangélica que tem produzido crentes pragmáticos tanto na vivência da fé como na conduta mundana.

De tão emblemático, o episódio da oração de Brunelli contém elementos que apresentam adequados a servir de base para a argumentação aqui proposta. Por motivos didáticos, procurei esboçar a proposta mediante a substituição dos princípios fundamentais do protestantismo por outros semelhantes.

Autoridade suprema de Cristo, em detrimento da autoridade suprema das escrituras. A Bíblia como referência permite que se adotem como padrão diversos de seus personagens, e que se absolutizem as situações ali narradas. Nesse sentido, Jacó pode ser o paradigma do crente moderno, a despeito de sua conduta egocêntrica e trapaceira. Sua conduta, no entanto, não é aceita em condições sociais nas quais já ocorreu o advento do reino de Deus, e a manifestação de Cristo. Nesse ambiente de boas novas, toda conduta há de se submeter ao pressuposto condicionante que é o reino de Deus, e o modelo de cidadão do reino que é Cristo.

A ausência de condenação moral a Jacó na narrativa de Gênesis, e sua escolha para a constituição da nação de Israel, absolutizadas pela autoridade suprema das escrituras, confere ao crente, em função do paradigma, a ideia de que pode dispor das coisas como lhe convem, visto ser ele escolhido. Ele não está vinculado a regras como os demais - é ungido de Deus. Assim é Brunelli.

Em Cristo essa realidade muda de figura, e Jacó aparece como oposição ao procedimento do servo sofredor. Com a autoridade suprema de Cristo, estabelece-se paradigma excludente, no qual qualquer comportamento em oposição ao de Cristo deverá ser rejeitado, não por ser pecaminoso ou por qualquer outra razão de cunho meramente conceitual - será rejeitado porque não se conforma com o padrão de amor, serviço e entrega.

A autoridade suprema de Cristo impõe que a leitura bíblica seja toda feita a partir dele, e escrutinada em função daquilo que falou e viveu.

Diaconato universal de todos os crentes em oposição ao sacerdócio universal de todos os crentes. Lutero ao tentar desmontar a hierarquia e o poder da Igreja, particularmente em relação ao indivíduo, concedeu enorme relevância a essa doutrina periférica no Novo Testamento, que é o sacerdócio universal de todos os crentes. Como elemento de enfrentamento do clero a tese funcionou, mas a custa de elevar todos os crentes à condição de sacerdotes, ou seja, dotados das características próprias deles, em particular o relacionamento privilegiado com Deus, o conhecimento da verdade, a mediação.

Esse simples conceito é o estimulador da fragmentação protestante, na medida em que todos e cada um têm o acesso a Deus e ao conhecimento da verdade, podendo criar suas próprias vias eclesiásticas. Cada um é sacerdote, e cada líder um ungido, escolhido de Deus.

Cristo opôs-se ao sacerdócio, e sua consagração sacerdotal tardia, no livro de Hebreus, é um tanto discutível, visto que ele se apresenta como o servo sofredor. O diaconato, por sua vez, visa incutir no crente a consciência de serviço, de humildade, disposição para a cruz, em oposição ao sacerdote exigente que, por ser próximo a Deus entende-se sujeito de privilégios.

Brunelli é a expressão maior da figura do sacerdote no âmbito evangélico - é o ungido, um mediador, e detentor de privilégios.

O reino de Deus como elemento central do discurso e da prática do crente em oposição ao conceito da salvação pela graça mediante a fé somente. Cristo veio anunciar o reino, e não a salvação das almas dos homens. A salvação remetida para uma vida além dessa promove a acomodação que legitima a ação de Brunelli. Pouco interessa essa vida. Ao contrário disso, o reino que veio e que vem é motivação para a luta diária - nós somos os agentes de sua implantação, à semelhança de Cristo.

O protestantismo contém em si a semente que permite sua releitura. As colocações acima são protesto contra o protestantismo - a apontam para a necessidade de sua revisão. Para quem admite o protestantismo ideologizado isso não será possível, mas para quem o entende como igreja reformada, sempre se reformando, a compreensão pode ser factível.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

A oração de Brunelli

Ver o Brunelli orando para agradecer a bênção do dinheiro sujo recebido não me surpreende. Ele, Prudente, Adão Xavier e outros pares sempre deixaram claro que não fazem ideia do que seja o reino de Deus, e, particularmente, os valores desse reino.

É interessante, todavia, notar o processo que leva ao absurdo de se abençoar Durval e o dinheiro advindo da corrupção. Brunelli é o crente que estabelece a dicotomia entre o sacro e o profano, o céu e o inferno, o bem e o mal, sem compreender que, conquanto seja possível estabelecer alguns contornos distintos dessas realidades, nenhum de nós está totalmente identificado com uma ou com outra.

E, pior, ao crer que existem tais distinções, ao adentrar no profano, age conforme as leis desse âmbito profano, visto que as disposições do mundo sacro não dão conta desse novo e estranho mundo. No entanto, mantem algumas práticas sacras, que funcionam no sentido de legitimar o profano, sacralizando-o. Desde que recebidas com ações de graças, quaisquer bênçãos de origem profana podem ser aceitas.

A despeito de toda a identidade que esse crente passa a ter com os não-crentes, o seu mundo permanece dividido entre "nós" e "eles". É interessante, no entanto, que, como já se falou, "nós" acabamos agindo como "eles", e o que traz dinheiro para "nós", apesar de fazer parte "deles", merece a bênção de uma oração. Afinal, se Deus usa até a mula para falar com Balaão porque não poderia usar Durval para abençoar Brunelli? No entanto, Durval, por mais que seja bênção, continua pertencendo a "eles".

Brunelli traz o profano para o sacro, e o santifica. Dinheiro roubado passa a ser bênção: segundo Brunelli, Durval tem sido instrumento de bênção para toda a cidade! Essa passagem é feita mediante outro tráfico iníquo: a privatização do público. Dinheiro de todos que passa a ser, ilegitimamente, propriedade de um.

Cristo nada tem a ver com aqueles que roubam órfãos e viúvas e para justificar fazem longas orações. Arrependei-vos os que praticais a iniquidade, pois está próximo o reino de Deus.

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Cristo, nome excelente

Jesus Cristo, nome excelente, pois não há nenhum outro sobre a terra pelo qual importa que sejamos salvos. Salvos hoje, de nossas dores e tragédias pessoais e coletivas. O exemplo dele, no entanto, nos leva a sermos o instrumento da salvação, e não o recipiente. Particularmente para os que já o conhecem.

Quem salva outros a si mesmo se salva. Quem segue pelo caminho salvando seur irmãos cura suas próprias feridas. Quem espalha milagres é ao mesmo tempo alcançado por eles. E, se ao final do caminho a porta estreita levar à cruz, não terá havido nada que tenha valido tanto a pena.

sábado, 28 de novembro de 2009

There is a crack in everything...

Há uma falha, uma fissura, uma rachadura em tudo e em todas as coisas.

Essa é a afirmação da música sombria de Leonard Cohen. Remete a toda dor e sofrimento espalhados por todos os lados, gente em desespero, opressão de um homem sobre o outro. Enquanto eu estou sentado em meu escritório vendo o sol da manhã iluminar minha bela casa - e ouvindo Anthem no Youtube, alguns moram no esgoto. Estou acordado e minhas filhas dormem no quarto ao lado, enquanto tantas filhas não chegaram a suas casas - e algumas não chegarão.

Em poucos minutos vou picar uma banana, que comerei com aveia e açucar. Como hoje é sábado, muitas crianças não têm a merenda escolar e nada comerão pela manhã.

Cohen diz: esqueça sua oferta perfeita, há uma rachadura em tudo, e é por ela que a luz penetra.

Toquem os sinos que ainda podem ser tocados!

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

A interpretação bíblica de Jesus

Autodenominado apóstolo, Paulo alegou ter se encontrado com Jesus. Sua autoridade é autoconcedida. Paulo olha para Jesus Cristo e interpreta sua vida como o Filho do Homem, ele mesmo, não havia feito. A questão que se coloca é: há outra leitura possível?

Os desencontros entre a teologia de Paulo e os evangelhos são evidentes, a ponto de Tiago censurar de maneira até agressiva a ideia da salvação pela fé somente: ...pode semelhante fé salvá-lo?

O conceito da autoridade suprema das Escrituras nos fez, dogmaticamente, fechar os olhos para as inconsistências que se apresentam no Novo Testamento. Como enfrentá-las sem perder a fé que foi erigida sobre a teologia Paulina?

O Cristo que emerge de Paulo não é exatamente o mesmo que viveu na Judeia e na Galileia.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Somente o que for permitido

Kowalski caminhava rapidamente em direção à porta quando um raio queimou o quadro de força de sua casa. A escuridão que tomou conta de sua casa o fez tropeçar no porta-revista que ficava ao lado do sofá, para, em seguida, desabar à frente da escada. A cabeça bateu de leve no primeiro degrau, o suficiente para fazer um galo doído.

Mas, ao mesmo tempo, do outro lado do planeta faltava água em uma pequena ilha da Indonésia.

Quando fazia sua caminhada, na manhã daquele dia, Osmir deu conta de que as mangueiras da capital brasileira já estavam cheias de frutas. Lúcia, que o acompanhava perguntou se ele iria colher algumas para si. Osmir respondeu, com um certo cinismo: só o que for permitido.

A luz não voltou, a água chegou, e as mangas não amadureceram.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Tudo começou com minha desconfiança a respeito de Paulo...

...pois percebi uma grande diferença entre sua mensagem e a de Cristo. Paulo falava de Cristo, não o que Cristo falou. É muito diferente. Ele olha para Cristo e tenta entender sua vida e obra. Cria conceitos, faz teologia. Organiza a igreja, cria inúmeras regras, leis.

Paulo é apóstolo autoproclamado. Seu caminho é distinto daquele de Pedro e demais discípulos. É bem tratado por Pedro, mas dispara contra ele. Paulo é o arauto da verdade, o grande precursor do protestantismo.

Bultman dá graças a Deus por Paulo ter criado o cristianismo como o fez, do contrário, segundo ele, o Caminho teria sido apenas mais uma seita judaica desparecida no tempo.

Paulo trouxe para o evangelho conceitos da filosofia grega que nada tinham a ver com o judaísmo de Cristo e seus discípulos - e prevaleceu.

No mesmo livro colocamos mensagens que chegam próximas à oposição. Nieztche desenvolve essa ideia da oposição entre Paulo e Cristo, em O Anticristo. É categórico a esse respeito. Não tenho condições de fazer a análise tão adequada, mas mesmo que de maneira mais superficial, desconfio de Paulo.

Há coisas boas em Paulo, mas não creio que possamos colocá-lo em pé de igualdade com os evangelhos.