domingo, 25 de março de 2012

Porque teu é o reino, o poder e a glória para sempre

Estou devendo esse comentário final sobre a oração de Jesus, e vou ficar devendo por alguns dias, ainda. Fiz consulta a respeito dele a um biblsta, para ter informações sobre a ausência dessa doxologia em alguns textos. Enquanto isso, pularemos para Isaías, com seus textos eloquentes.

domingo, 11 de março de 2012

A família de um homem e uma mulher: ajuste social, não moral

Jesus endossou o direcionamento dado no Gênesis: portanto, deixará o homem pai e mãe, se unirá à sua mulher, e serão uma só carne.

A intepretação religiosa comum diz que esse comando se trata de uma regra de conduta, de um padrão moral. Deixo de lado essa possibilidade para escolher aquela que me parece melhor, mais adequada: trata-se de um padrão de conformação social.

As unidades sociais são famílias constituídas a partir da união de um homem com uma mulher, que deixam o ambiente doméstico pessoal para formar um novo. Assim organiza-se a sociedade ao longo das eras.

Deixando de lado a experiência da poligamia, presente em várias culturas, o modelo dominante é a união homem - mulher, na proporção de um para uma... Novas conformações produzirão novos modelos sociais.

Penso que a conformação proposta por Cristo seja a melhor, na medida em que creio ser ele o criador de todas as coisas.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Não nos deixe cair em tentação, mas livra-nos do mal

Na linha de pensamento e argumentação que expus até aqui, o mal se caracteriza pela não obediência à vontade de Deus, ou, resumidamente, em não amarmos o próximo. Nesse sentido, a tentação e o mal são, de maneira particular, a vitória do egocentrismo.

O pedido de libertação do mal está relacionado, na frase, com a queda em tentação. Cair em tentação é sofrer o mal. Não se trata do pedido - também válido diante de Deus - de não se tornar vítima do mal, tanto do involuntário, não causado pela vontade humana, como do voluntário, aquele que é produto da ação humana intencional.

A tentação é o desejo, a inclinação, a tendência egocêntrica, e isso produz o mal em e para nós.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Perdoa-nos as nossas dívidas

Assim como nós perdoamos os nossos devedores. Quando pequeno eu corrigi o texto, mudando essa primeira frase para assim como nós deveríamos perdoar os nossos devedores. Eu não contava com os versículos que vêm após o final da oração: porque se vós não perdoardes os vossos devedores tampouco vosso pai vos perdoará as vossas dívidas.

Parece-me restar muito pouco espaço para interpretações, com a elucidação que Jesus faz. O perdão é condicional. Deus me perdoa na medida em que eu perdoo.

Mas, do que Jesus está falando? Quero dizer, o que faço de equivocado que precisa ser perdoado? Será que se trata das longas listas de proibições que as religiões criam, mas que pouco têm a ver com o evangelho de Jesus? Duvido. Elas são códigos nossos, cuja transgressão acarreta sanções imediatas por parte das comunidades que os adotam.

O perdão de Deus refere-se a coisas mais robustas, mais valiosas, mais significativas, mais relevantes. Deus está falando sobre obediência à sua vontade, essencialmente do amor ao próximo. Nossas dívidas referem-se ao que teríamos que fazer e não fizemos, em relação ao próximo, e não ao que supostamente eu não devo fazer e fiz.

Essa inversão é um dos grandes perigos do cristianismo, pois o cristão sente-se em paz se consegue se manter longe dos erros condenados nos códigos religiosos, sabendo ainda que, uma vez cometidos, a questão pode ser resolvida mediante a confissão e o pedido de perdão. Não, efetivamente não são essas as nossas dívidas. Não reputo que esses códigos sejam totalmente sem valor, pelo contrário, eles existem com o fim de se manter estáveis e harmônicas as relações sociais.

Mas, para efeito de aplicação do que Jesus apresenta na oração que nos ensina esses códigos só têm valor na medida em que seus dispositivos não sejam obrigações de não fazer, mas, muito mais do que isso, obrigações de fazer. Obrigações de não fazer só fazem sentido quando, efetivamente, promovem o bem do próximo.

Está em dívida quem deveria fazer e não faz. Há perdão para isso, desde que se perde aqueles que também deveriam ter feito e não fizeram.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

O pão nosso de cada dia dá-nos hoje

Pedir o pão significa pedir o mínimo de que precisamos para sobreviver. O alimento, assim como diversos outros objetos de nosso consumo, podem ser chamados de "bênçãos excludentes" - aquelas que, se eu consumir, outros não vão poder consumir. Isso porque os recursos são finitos.

A orientação de Jesus para que peçamos o mínimo está diretamente relacionada com o fato de que não existe suprimento em abundância para todos. A abundância de uns determina a privação de outros. Por isso a necessidade de tomarmos o caminho do esvaziamento. O que eu consumir em excesso determinará a privação de alguém.

O que deixa clara essa necessidade de preocupação com as necessidades do próximo é o fato de que o pão é nosso, não é meu: que o pão nosso, nos seja dado hoje... a todos nós, irmãos, família humana. O desperdício de uns não passa despercebido, pois falta aos outros.

No entanto, como o que se consome em excesso na América falta na África, parece que nós consumidores não temos responsabilidade, o problema seria culpa deles mesmos. Pensando assim, livramo-nos de qualquer preocupação com o bem-estar daqueles que sofrem a falta de alimentos.

No entanto, isso é um grande engano, pois somos responsáveis uns pelos outros.

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Assim na terra como no céu

Deus está no céu, segundo Jesus afirma no início da oração. Ele não está aqui, Ele é o Grande Ausente.

No português, ao menos, há uma dubiedade de sentidos na frase título desse post. De duas, uma:

- A vontade do Grande Ausente é feita no céu, e da maneira como é feita lá deve ser feita aqui; ou
- A vontade do Grande Ausente não é feita nem na terra nem no céu, mas devemos pedir a Ele que a realize, aqui e lá.

É tudo que consigo enteder dessa expressão.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

O esvaziamento necessário

(Pequena pausa na sequência de posts sobre a oração de Jesus, que logo retorna).

A experiência humana é inversa à de Deus.

O ser humano nasce do nada e sem nada, e ao longo de sua existência acumula e enriquece. Deus é tudo, tem tudo e não é nascido. Aquele que tem tudo e é tudo, no entanto, deixa tudo para se tornar nada. Nada acumula, e na cruz morre sem nada.

Paulo fala na kenosis, a experiência do Deus que, em Cristo, se esvazia. Os teólogos ortodoxos se apressaram em entender uma kenosis que não retirasse de Deus seus atributos, pois, sem eles, não seria Deus. Isso tem pouca relevância para nosso dia a dia. Imitar a kenosis de Cristo, no entanto, faz toda a diferença.

A vida do ser humano dura pouco tempo, é como uma erva que nasce e logo seca. Nesse breve lapso de tempo ele é convidado a inverter seu caminho de acumulação e enriquecimento, para olhar de volta o ventre e desejar o retorno à ausência de bens. Convidado a desfazer a acumulação e o enriquecimento. A caminhar para a cruz da entrega de tudo.

O amor ao dinheiro é a raiz de todos os males.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Venha o teu reino, seja feita a tua vontade

Esse post é essencialmente conceitual. Vamos lá.

O reino de Deus equivale à vontade de Deus. Ou seja, tanto mais o reino se estabelece quanto mais a vontade de Deus é praticada. Quanto mais de um (vontade de Deus praticada), mais de outro (estabelecimento do reino de Deus), quanto menos de um, menos de outro.

Resta saber, no entanto, o mais difícil: afinal, o que é a vontade de Deus?

A argumentação fácil, mas impossível de ser compreendida, é de que a vontade de Deus são os seus ensinamentos, que estão espalhados por toda a Bíblia. Esse é uma definição inviável, pois da Bíblia se extrai fundamento para posturas e atitudes que podem ser opostas umas às outras.

Minha definição simples é que a vontade de Deus equivale à melhor decisão possível, em cada situação vivenciada, tendo em mente a máxima "amar ao próximo como a si mesmo". Nessa linha de pensamento, não existe um cânon do certo e do errado, uma cartilha a ser seguida, como, mesmo que informalmente, têm todas ou quase todas as religiões.

Dietrich Bonhoeffer explica com clareza que a vontade de Deus só se estabelece nas situações concretas, não existindo o certo e o errado por antecedência. Sua compreensão teológica a respeito do tema vem de sua prática: matar é errado, mas ele entendeu que como discípulo de Cristo deveria participar do atentado contra a vida de Hitler.

É complicado levar esse paradigma, ou ausência de paradigma, às últimas consequências: os seres humanos preferem parâmetros claros e bem estabelecidos que possam seguir, e que possam ser utilizados na hora de se tomar decisões. Do outro lado, existe a liberdade de decidir e arcar com a responsabilidade dos próprios atos, a partir da observação à máxima acima mencionada.

O reino vem não como um passe de mágica, ou um vento que sopra, mas como resultado da orientação em seguir os passos de Jesus de Nazaré, que viveu por amor ao próximo.

sábado, 21 de janeiro de 2012

Pai nosso que estás nos céus

Deus Pai, é nosso paí. Se é nosso pai, isso inclui o fato de que ele é meu pai. Mas Jesus ensina que oremos chamando-o de nosso, não de meu. Se o pai é nosso, porque os motivos que me levam a buscá-lo são só os meus, e não os nossos? Quando muito, orações alcançam a dimensão coletiva da família, mas a regra é a relação individualizada, principalmente quanto àquilo que ao Pai se pede. Todo o restante da oração de Jesus é feita na primeira pessoa do plural, nós assim a recitamos mas parece que não percebemos esse fato, e não consideramos suas implicações.

Deus está nos céus, Deus não está aqui. Esse é o sentido da afirmação de Jesus: Deus não está aqui. É possível alcançá-lo por meio da oração, mas ele não está aqui. Isso nos induz a pensar que há um grande espaço de protagonismo para nós, que como se vê em outras falas de Jesus não é voluntário, mas obrigatório a quem o segue. No meio disso, no entanto, Deus é um pai que se apresenta e que age. Deixo para a teologia decidir se ele reina mas não governa, ou se reina e governa, ou o quanto reina e o quanto governa. Para nós resta saber que estando ele ausente é grande nossa responsabilidade, e que esse ausente de alguma forma também se faz presente.

No próxims posts vou refletir sobre a vinda do reino e a vontade de Deus. Até hoje não fiz uma reflexão com alguma consistência sobre a santificação do nome de Deus, por isso, essa frase fica para o fim.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Por um Natal sem Jesus

Estamos constantemente tentando incluir Jesus no Natal... Mas, o espírito de Jesus de Nazaré já está lá, na ideia dos presentes que se dão. O consumismo da época tem uma boa causa: não é próprio, é para o outro. Além disso, dá trabalho para muita gente, movimenta a economia, gera muitas ações de solidariedade, enfim, aquele espírito generoso de Cristo é o que impulsiona a festa.

No entanto, o Natal ganhou uma dimensão de universalidade que faz com que da festa participem os não-cristãos. Assim sendo, creio que seria adequado desteologizar o Natal. Quem quiser comemorar o nascimento de Jesus, que o faça uma semana antes, ou uma semana depois - eu participo, inclusive. Não precisa ser no dia 25, data na qual o Natal se impôs como uma festa que transcendeu o presépio.

Esse Natal que comemoramos hoje é uma festa secularizada, que se originou com a celebração do nascimento de Jesus. Se a figura de Jesus foi esquecida ao longo dos anos, a ponto de querermos a todo o tempo reinseri-lo na festa, o espírito dele permanece presente. Mais importante do que falar ou lembrar o nome de Jesus é seguir o exemplo de Jesus - no Natal fazemos isso, em larga escala. Está bom, assim.

Alguns autores estão dizendo que a secularização não é o fim do cristianismo, mas um processo interno dele. Mas, isso já é prosa para um outro post.

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

O Reino de Deus é o Reino sem Deus

Nossa, ainda bem que ninguém lê meu blog... Principalmente as pessoas para quem faria sentido que ele fosse escrito: os religiosos de origem protestante.

Ontem me veio essa ideia à mente: o Reino de Deus é o Reino sem Deus. Essa ideia se baseia em duas percepções que se cruzam e se fundem.

A história do reino de Israel no Antigo Testamento é a história do Deus de Israel, que comanda os eventos de forma magnífica, conforme este povo o busca ou dele se afasta. O rumo da história é definido como consequência da obediência ou da desobediência dos israelitas à Lei de Israel. Quando surge o novo reino, a Pedra do sonho de Nabucodonosor que substitui a antiga conformação dos reinos, que é aquele que o anuncia - Jesus - diz que esse reino tem outra natureza, e que não é deste mundo. Passo seguinte é verificar que Deus não mais atua na história como consequência da obediência ou desobediência de um povo, qualquer povo que seja. Essa é a primeira percepção.

A segunda percepção diz respeito ao protagonismo individual que surge, do cidadão do reino instado a amar: é ele que constrói o reino por meio da obediência e da prática da vontade de Deus: "(...) venha o teu reino, seja feita a tua vontade (...)". Conquanto ainda esteja presente o elemento ordenador da história, que é a obediência, a implantação do reino não surge como benção de Deus para o obediente, mas, como consequência de seus atos. Daí que o protagonismo humano se torna efetivamente mais importante.

Se isso faz algum sentido, passou-se de um conceito de conta-corrente, na qual a obediência gerava bençãos de prosperidade (crédito) ou maldição e exílio (débito), para uma situação na qual é a consequência da obediência que produz o ambiente que pode ser chamado de reino de Deus. O indivíduo é reponsável pelo estabelecimento do reino. É o reino de Deus sem Deus, é o reino no qual sua vontade se estabelece pela busca do homem que ama Jesus de Nazaré.

Faz sentido?

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Salvação e interpretação

Lendo Vattimo, pude compreender melhor a ideia de porque a salvação anunciada em Jesus pode ser considerada um evento hermenêutico: "Cristo é a interpretação viva do sentido da lei e dos profetas (...) muito embora a salvação esteja essencialmente 'completada' com a encarnação, paixão, morte e ressurreição de Jesus, ela ainda espera uma complementação ulterior".

Além disso, diz Vattimo, "em um sentido mais imediato (...) nos referimos à pregação e à explicação pastoral dos textos sagrados aos fiéis". Nessa tradição cristã, demonstra-se com clareza a natureza interpretativa da salvação.

Se a história da salvação não está completa, mas vai se desenrolando e se estabelecendo na história, também a interpretação continua sendo necessária. Ao tempo em que os acontecimentos salvíficos se sucedem, é indispensável compreendê-los.

Para compor melhor essa noção de progressão e continuidade hermenêutica seria muito útil considerar que a interpretação começa na própria Bíblia, em tudo aquilo que é posterior a Jesus, particularmente nas cartas de Paulo. De fato, Paulo olha para Cristo e interpreta sua vida e obra, em modo muitas vezes diverso da própria pregação do Senhor.

Assim, compreendendo que os escritos paulinos são, essencialmente, hermenêuticos, e não fonte inerrante, abrir-se-ia melhor o caminho para o desenvolvimento contínuo da interpretação, ao longo dos tempos.

sábado, 14 de maio de 2011

Fé e contradições

Os fundamentalistas se esforçam para demonstrar que a Bíblia é infalível, que não há nela erros nem contradições. Publicam livros a esse respeito. Nessa sanha, buscam novas exegeses no hebraico e no grego para encontrar significados para as palavras dos textos que nos confundem. É algo que equivale, mais ou menos, a justificar Deus pelos erros que cometeu ao produzir um livro que deveria ser perfeito.

Esse procedimento leva àquilo que é conhecido como dialética do iluminismo: produz o efeito contrário que se supunha que aquele conjunto de conhecimentos produziria! Isso porque a fé surge em meio às dúvidas, às contradições, às incoerências. Se a Bíblia se estabelece como um livro testado e comprovado contra quaisquer falhas - que é o produto desse procedimento dos fundamentalistas - ela deixa o campo da fé, da espiritualidade, e passa a ser ciência.

Às tentativas de descrédito da Bíblia não podem ser opostas ações que tirem dela seu caráter, sua essência. É bom que Cristo seja mencionado apenas nos evangelhos e somente de maneira vaga em outros livros. É bom que os evangelhos guardem algumas contradições. Pois é esse o ambiente no qual surge a fé.

Eu creio, sem porquês. Simplesmente creio, e fiz de Cristo o Senhor de minha existência.

terça-feira, 10 de maio de 2011

Buscando novas interpretações

Segundo a teologia protestante, a cruz de Cristo é o ato final do projeto de salvação de Deus para o homem, que, mediante a entrega de seu Filho livra o ser humano da condenação. Proponho que a cruz seja vivenciada como o elemento inicial da proposta de Deus para salvação do mundo, constituindo-se, fundamentalmente, em exemplo a ser seguido: toda salvação depende de uma cruz.

O indivíduo é o objeto do amor de Deus e aquele para quem o plano de salvação foi arquitetado. Sua salvação depende de decisão pessoal, ou de ser um escolhido - conforme a vertente agostiniana ou arminiana. Proponho que o objeto do amor de Deus seja deslocado para a humanidade, e que o indivíduo seja compreendido como elemento que colabora para a salvação dessa coletividade, pois a ideia de uma redenção individualizada não condiz com o conceito de reino de Deus.

A salvação e a vida com Deus dependem da consciência quanto aos valores bíblicos e de uma tomada de posição quanto a isso. Proponho que se admita que o ser humano pode ser um cidadão do reino de Deus sem nem mesmo tomar conhecimento da existência de um reino e do Senhor desse reino, bastando, para isso, que seja orientado para e viva conforme os valores do reino. Se a redenção pode ser alcançada independentemente da consciência, perde relevância o conhecimento e a apologia da verdade, pois o valor maior que se sobressai é a marca mais característica do reino: a justiça.

A igreja é compreendida como a reunião dos indivíduos que aceitaram a mensagem da salvação, ou que estão no processo de aceitar, e tem como objetivo espalhar essa mensagem na busca por novas adesões. É uma instituição divina fundada por Cristo. Proponho que se enxergue a igreja como a reunião de pessoas que querem servir ao próximo, e, assim, tornarem-se semelhantes a Cristo, um ente que não se entende como tendo origem divina, mas, fruto da intenção humana de seguir a Jesus.

segunda-feira, 18 de abril de 2011

"Para quê" ou "O que vou fazer com isso?"

Diante das situações críticas, em particular, muitas vezes nos perguntamos porque estamos passando por aquilo. Como a pergunta acerca da razão implica uma certa revolta e rebeldia, alguns viram a necessidade de mudar a pergunta para um funcionalista "para quê"?

Acreditar que tudo tem um "para quê" corresponde a acreditar no destino, ou na vontade soberana de Deus que governa o universo em todos os seus detalhes. No fundo, uma crença não difere da outra.

Talvez a melhor opção seja: o que vou fazer com isso, ou, o que vou fazer a partir disso? Supera-se a visão funcionalista da existência, na qual tudo tem que ter e de fato tem um motivo que, ao final, restará comprovado diante de mim e justificará a ação a princípio incompreensível de Deus.

É muito difícil viver assim. Mais prático é entender que ficamos doentes porque todos ficam doentes, ou que pegamos uma chuva enorme porque a chuva cai sobre os bons e sobre os maus. Valeria a pena viver a vida assim pela simples praticidade, mas a simples verdade é que ninguém está livre de ficar doente.

segunda-feira, 14 de março de 2011

De novo o mistério da fé

Nos últimos anos, uma afirmação de Jesus, em particular, tem tomado muito tempo de minhas reflexões teológicas: "seja feito conforme a tua fé".

Aqui, se tivermos coragem de admitir, veremos que a fé é colocada como um elemento autônomo, sem objeto. Não se trata de fé em Cristo, trata-se apenas de fé. Essa é uma contestação perturbadora: o próprio Cristo não exigiu que a fé que move montanhas fosse fé nele, Cristo.

Além disso, e talvez seja necessário ainda mais coragem para admitir, a fonte do poder que resolve o problema não é ele, Cristo, mas aquele que tem fé. Isso está implícito também no texto que fala da fé que move montanhas.

É assim que enxergo os textos. Talvez os doutores em grego possam me provar o contrário. No português me parece bem claro: Cristo não tem uma visão cristã sobre fé - como de resto, não tem também sobre outras questões.

Dois alertas: eu preferia não chegar a tal conclusão, pois essa fé autônoma é o objeto do desejo da autoajuda, e se encaixa bem com a teologia da prosperidade; e, a reflexão aqui não tem o objetivo de minimizar o poder de Cristo.

sábado, 29 de janeiro de 2011

Eis aqui a tua igreja

Essa afirmação explicita uma presunção dos crentes: que Deus tenha criado essa organização, e que ela seja seu instrumento para agir na Terra. Será isso mesmo?

Essa presunção contém uma dificuldade: se a igreja é de Deus, qual igreja é de Deus? Porque, se a igreja x é de Deus, isso implica, necessariamente, que aquelas que estão em contradição a ela não sejam de Deus. Ou será que cada uma tem um pouquinho de inspiração divina, e a igreja, de fato, seja essa elaboração etérea chama de igreja invisível?

Não vou seguir com essa argumentação, porque o propósito dela é apenas demonstrar a dificuldade que existe em considerar que a Igreja seja uma instituição divina. Nessa linha, vale argumentar, inclusive, que a infalibilidade papal é um conceito em sintonia com a ideia da divindade dessa organização.

A presunção de divindade faz mal à igreja. Se se considerar que ela é uma organização humana que se propõe a servir a Cristo, possivelmente se tornará mais saudável.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

O desafio da Teologia

Teologia Sistemática, em si, é uma ideia contraditória. Como sistematizar Deus? A explicação tangenciada de que, na verdade, trata-se de conhecimento sobre Deus, e não de Deus em si, não resolve o problema. Em ultima instância, quer-se sistemativar Deus. Se Deus pode ser compreendido de maneira sistemática por alguém, aquele que o sistematizou tornou-se maior do que Ele.

Seria um esforco hercúleo sistematizar teologicamente os sinóticos. Jesus não se preocupou com teologia. Os textos daqueles evangelhos mostram que a preocupação dele era a vida. Seus discursos versam sobre questões práticas, cotidianas. Deixou de lado qualquer reflexão teológica e muito menos se preocupou em tratar de qualquer questão de maneira sistemática.

O que se considera como virtude - a construção do conhecimento sobre Deus - talvez não passe de fraqueza: não conseguimos viver imitando-o, queremos segui-lo se pudermos entendê-lo - ou algo assim.

domingo, 8 de agosto de 2010

Pode-se encontrar Jesus até numa igreja

Mesmo no emaranhado de conceitos absurdos e práticas alucinadas das igrejas, Cristo se deixa encontrar. Talvez naquele local onde mais se fale no seu nome ele seja menos conhecido e seguido. Apesar disso, se alguém ali desejar encontrá-lo, ele não se furtará de se apresentar.

domingo, 24 de janeiro de 2010

Haiti

Não sei se ainda há algo mais a se dizer acerca da tragédia do Haiti.

Reclamo que muitas igrejas, agora de manhã (hoje é domingo, dia 24/1) não irão mencionar o assunto, nem mesmo para fazer uma oração pelo povo sofrido daquela terra. Fico feliz ao ver inúmeras iniciativas entre as igrejas para não só enviar doações como profissionais - principalmente da área da saúde.

Vejo, mais uma vez, a arrogância dos norte-americanos e sua dificuldade - ou desinteresse - para trabalhar sob a coordenação de outros, ou mesmo em parceria. É lamentável. Mas gostaria de deixar escrito comentário que tenho feito repetidamente: quando essa potência dominante forem os chineses teremos saudade dos norte-americanos.

Estou preocupado com o dinheiro que está chegando no Haiti - grande parte dele vai correr pelo ralo da corrupção das autoridades locais. Estamos tentando fazer algo para colaborar nesse sentido, ou seja, uma iniciativa de controle desse fluxo de recursos internacionais, condicionado pelos doadores. Dificilmente, as autoridades locais teriam interesse nisso.

Não ouvi, nesse caso, tantas imprecações a Deus, como em outras situações semelhantes. Houve quem associasse a tragédia à prática do vodu entre aquele povo. De maneira geral, no entanto, pelo menos no universo próximo, essas reflexões sem sentido foram deixadas de lado, e a pergunta principal, para quem as fez, foi: como posso ajudar?

Estou lendo a Teologia da Esperança, de Moltmann. Boa leitura para enfrentar essa dor profunda.