segunda-feira, 18 de abril de 2011

"Para quê" ou "O que vou fazer com isso?"

Diante das situações críticas, em particular, muitas vezes nos perguntamos porque estamos passando por aquilo. Como a pergunta acerca da razão implica uma certa revolta e rebeldia, alguns viram a necessidade de mudar a pergunta para um funcionalista "para quê"?

Acreditar que tudo tem um "para quê" corresponde a acreditar no destino, ou na vontade soberana de Deus que governa o universo em todos os seus detalhes. No fundo, uma crença não difere da outra.

Talvez a melhor opção seja: o que vou fazer com isso, ou, o que vou fazer a partir disso? Supera-se a visão funcionalista da existência, na qual tudo tem que ter e de fato tem um motivo que, ao final, restará comprovado diante de mim e justificará a ação a princípio incompreensível de Deus.

É muito difícil viver assim. Mais prático é entender que ficamos doentes porque todos ficam doentes, ou que pegamos uma chuva enorme porque a chuva cai sobre os bons e sobre os maus. Valeria a pena viver a vida assim pela simples praticidade, mas a simples verdade é que ninguém está livre de ficar doente.

segunda-feira, 14 de março de 2011

De novo o mistério da fé

Nos últimos anos, uma afirmação de Jesus, em particular, tem tomado muito tempo de minhas reflexões teológicas: "seja feito conforme a tua fé".

Aqui, se tivermos coragem de admitir, veremos que a fé é colocada como um elemento autônomo, sem objeto. Não se trata de fé em Cristo, trata-se apenas de fé. Essa é uma contestação perturbadora: o próprio Cristo não exigiu que a fé que move montanhas fosse fé nele, Cristo.

Além disso, e talvez seja necessário ainda mais coragem para admitir, a fonte do poder que resolve o problema não é ele, Cristo, mas aquele que tem fé. Isso está implícito também no texto que fala da fé que move montanhas.

É assim que enxergo os textos. Talvez os doutores em grego possam me provar o contrário. No português me parece bem claro: Cristo não tem uma visão cristã sobre fé - como de resto, não tem também sobre outras questões.

Dois alertas: eu preferia não chegar a tal conclusão, pois essa fé autônoma é o objeto do desejo da autoajuda, e se encaixa bem com a teologia da prosperidade; e, a reflexão aqui não tem o objetivo de minimizar o poder de Cristo.

sábado, 29 de janeiro de 2011

Eis aqui a tua igreja

Essa afirmação explicita uma presunção dos crentes: que Deus tenha criado essa organização, e que ela seja seu instrumento para agir na Terra. Será isso mesmo?

Essa presunção contém uma dificuldade: se a igreja é de Deus, qual igreja é de Deus? Porque, se a igreja x é de Deus, isso implica, necessariamente, que aquelas que estão em contradição a ela não sejam de Deus. Ou será que cada uma tem um pouquinho de inspiração divina, e a igreja, de fato, seja essa elaboração etérea chama de igreja invisível?

Não vou seguir com essa argumentação, porque o propósito dela é apenas demonstrar a dificuldade que existe em considerar que a Igreja seja uma instituição divina. Nessa linha, vale argumentar, inclusive, que a infalibilidade papal é um conceito em sintonia com a ideia da divindade dessa organização.

A presunção de divindade faz mal à igreja. Se se considerar que ela é uma organização humana que se propõe a servir a Cristo, possivelmente se tornará mais saudável.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

O desafio da Teologia

Teologia Sistemática, em si, é uma ideia contraditória. Como sistematizar Deus? A explicação tangenciada de que, na verdade, trata-se de conhecimento sobre Deus, e não de Deus em si, não resolve o problema. Em ultima instância, quer-se sistemativar Deus. Se Deus pode ser compreendido de maneira sistemática por alguém, aquele que o sistematizou tornou-se maior do que Ele.

Seria um esforco hercúleo sistematizar teologicamente os sinóticos. Jesus não se preocupou com teologia. Os textos daqueles evangelhos mostram que a preocupação dele era a vida. Seus discursos versam sobre questões práticas, cotidianas. Deixou de lado qualquer reflexão teológica e muito menos se preocupou em tratar de qualquer questão de maneira sistemática.

O que se considera como virtude - a construção do conhecimento sobre Deus - talvez não passe de fraqueza: não conseguimos viver imitando-o, queremos segui-lo se pudermos entendê-lo - ou algo assim.

domingo, 8 de agosto de 2010

Pode-se encontrar Jesus até numa igreja

Mesmo no emaranhado de conceitos absurdos e práticas alucinadas das igrejas, Cristo se deixa encontrar. Talvez naquele local onde mais se fale no seu nome ele seja menos conhecido e seguido. Apesar disso, se alguém ali desejar encontrá-lo, ele não se furtará de se apresentar.

domingo, 24 de janeiro de 2010

Haiti

Não sei se ainda há algo mais a se dizer acerca da tragédia do Haiti.

Reclamo que muitas igrejas, agora de manhã (hoje é domingo, dia 24/1) não irão mencionar o assunto, nem mesmo para fazer uma oração pelo povo sofrido daquela terra. Fico feliz ao ver inúmeras iniciativas entre as igrejas para não só enviar doações como profissionais - principalmente da área da saúde.

Vejo, mais uma vez, a arrogância dos norte-americanos e sua dificuldade - ou desinteresse - para trabalhar sob a coordenação de outros, ou mesmo em parceria. É lamentável. Mas gostaria de deixar escrito comentário que tenho feito repetidamente: quando essa potência dominante forem os chineses teremos saudade dos norte-americanos.

Estou preocupado com o dinheiro que está chegando no Haiti - grande parte dele vai correr pelo ralo da corrupção das autoridades locais. Estamos tentando fazer algo para colaborar nesse sentido, ou seja, uma iniciativa de controle desse fluxo de recursos internacionais, condicionado pelos doadores. Dificilmente, as autoridades locais teriam interesse nisso.

Não ouvi, nesse caso, tantas imprecações a Deus, como em outras situações semelhantes. Houve quem associasse a tragédia à prática do vodu entre aquele povo. De maneira geral, no entanto, pelo menos no universo próximo, essas reflexões sem sentido foram deixadas de lado, e a pergunta principal, para quem as fez, foi: como posso ajudar?

Estou lendo a Teologia da Esperança, de Moltmann. Boa leitura para enfrentar essa dor profunda.

sábado, 5 de dezembro de 2009

Ainda sobre Brunelli

Temos que parar de vociferar contra Brunelli e avaliar o que está errado. Estou revoltado com ele, sem dúvida, não gosto dele e nunca gostei.

Mas, essa ira é pouco produtiva e não nos leva a lugar algum. Brunelli é simplesmente o produto de nossos enganos - nada mais.

O que temos que fazer é rever a caminhada - a teologia em particular.

Discursos moralistas e condenatórios não farão efeito algum; o protestantismo, como está, não tem mais o que oferecer.

O problema é de fundo, e precisamos de coragem para enfrentar os fatos e suas causas.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Brunelli e o ocaso do protestantismo

A questão que coloco é saber se Brunelli é produto ou negação do protestantismo. Se ele é produto, torna-se necessário rever o protestantismo, se ele é a negação, expurga-se Brunelli. Defendo que Brunelli seja produto, consequência natural da exploração extrema dos princípios fundamentais do protestantismo.

O indivíduo Brunelli, por si, não haveria de determinar a revisão do protestantismo - isso não faria sentido. Brunelli é tomado aqui como o emblema de uma geração evangélica que tem produzido crentes pragmáticos tanto na vivência da fé como na conduta mundana.

De tão emblemático, o episódio da oração de Brunelli contém elementos que apresentam adequados a servir de base para a argumentação aqui proposta. Por motivos didáticos, procurei esboçar a proposta mediante a substituição dos princípios fundamentais do protestantismo por outros semelhantes.

Autoridade suprema de Cristo, em detrimento da autoridade suprema das escrituras. A Bíblia como referência permite que se adotem como padrão diversos de seus personagens, e que se absolutizem as situações ali narradas. Nesse sentido, Jacó pode ser o paradigma do crente moderno, a despeito de sua conduta egocêntrica e trapaceira. Sua conduta, no entanto, não é aceita em condições sociais nas quais já ocorreu o advento do reino de Deus, e a manifestação de Cristo. Nesse ambiente de boas novas, toda conduta há de se submeter ao pressuposto condicionante que é o reino de Deus, e o modelo de cidadão do reino que é Cristo.

A ausência de condenação moral a Jacó na narrativa de Gênesis, e sua escolha para a constituição da nação de Israel, absolutizadas pela autoridade suprema das escrituras, confere ao crente, em função do paradigma, a ideia de que pode dispor das coisas como lhe convem, visto ser ele escolhido. Ele não está vinculado a regras como os demais - é ungido de Deus. Assim é Brunelli.

Em Cristo essa realidade muda de figura, e Jacó aparece como oposição ao procedimento do servo sofredor. Com a autoridade suprema de Cristo, estabelece-se paradigma excludente, no qual qualquer comportamento em oposição ao de Cristo deverá ser rejeitado, não por ser pecaminoso ou por qualquer outra razão de cunho meramente conceitual - será rejeitado porque não se conforma com o padrão de amor, serviço e entrega.

A autoridade suprema de Cristo impõe que a leitura bíblica seja toda feita a partir dele, e escrutinada em função daquilo que falou e viveu.

Diaconato universal de todos os crentes em oposição ao sacerdócio universal de todos os crentes. Lutero ao tentar desmontar a hierarquia e o poder da Igreja, particularmente em relação ao indivíduo, concedeu enorme relevância a essa doutrina periférica no Novo Testamento, que é o sacerdócio universal de todos os crentes. Como elemento de enfrentamento do clero a tese funcionou, mas a custa de elevar todos os crentes à condição de sacerdotes, ou seja, dotados das características próprias deles, em particular o relacionamento privilegiado com Deus, o conhecimento da verdade, a mediação.

Esse simples conceito é o estimulador da fragmentação protestante, na medida em que todos e cada um têm o acesso a Deus e ao conhecimento da verdade, podendo criar suas próprias vias eclesiásticas. Cada um é sacerdote, e cada líder um ungido, escolhido de Deus.

Cristo opôs-se ao sacerdócio, e sua consagração sacerdotal tardia, no livro de Hebreus, é um tanto discutível, visto que ele se apresenta como o servo sofredor. O diaconato, por sua vez, visa incutir no crente a consciência de serviço, de humildade, disposição para a cruz, em oposição ao sacerdote exigente que, por ser próximo a Deus entende-se sujeito de privilégios.

Brunelli é a expressão maior da figura do sacerdote no âmbito evangélico - é o ungido, um mediador, e detentor de privilégios.

O reino de Deus como elemento central do discurso e da prática do crente em oposição ao conceito da salvação pela graça mediante a fé somente. Cristo veio anunciar o reino, e não a salvação das almas dos homens. A salvação remetida para uma vida além dessa promove a acomodação que legitima a ação de Brunelli. Pouco interessa essa vida. Ao contrário disso, o reino que veio e que vem é motivação para a luta diária - nós somos os agentes de sua implantação, à semelhança de Cristo.

O protestantismo contém em si a semente que permite sua releitura. As colocações acima são protesto contra o protestantismo - a apontam para a necessidade de sua revisão. Para quem admite o protestantismo ideologizado isso não será possível, mas para quem o entende como igreja reformada, sempre se reformando, a compreensão pode ser factível.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

A oração de Brunelli

Ver o Brunelli orando para agradecer a bênção do dinheiro sujo recebido não me surpreende. Ele, Prudente, Adão Xavier e outros pares sempre deixaram claro que não fazem ideia do que seja o reino de Deus, e, particularmente, os valores desse reino.

É interessante, todavia, notar o processo que leva ao absurdo de se abençoar Durval e o dinheiro advindo da corrupção. Brunelli é o crente que estabelece a dicotomia entre o sacro e o profano, o céu e o inferno, o bem e o mal, sem compreender que, conquanto seja possível estabelecer alguns contornos distintos dessas realidades, nenhum de nós está totalmente identificado com uma ou com outra.

E, pior, ao crer que existem tais distinções, ao adentrar no profano, age conforme as leis desse âmbito profano, visto que as disposições do mundo sacro não dão conta desse novo e estranho mundo. No entanto, mantem algumas práticas sacras, que funcionam no sentido de legitimar o profano, sacralizando-o. Desde que recebidas com ações de graças, quaisquer bênçãos de origem profana podem ser aceitas.

A despeito de toda a identidade que esse crente passa a ter com os não-crentes, o seu mundo permanece dividido entre "nós" e "eles". É interessante, no entanto, que, como já se falou, "nós" acabamos agindo como "eles", e o que traz dinheiro para "nós", apesar de fazer parte "deles", merece a bênção de uma oração. Afinal, se Deus usa até a mula para falar com Balaão porque não poderia usar Durval para abençoar Brunelli? No entanto, Durval, por mais que seja bênção, continua pertencendo a "eles".

Brunelli traz o profano para o sacro, e o santifica. Dinheiro roubado passa a ser bênção: segundo Brunelli, Durval tem sido instrumento de bênção para toda a cidade! Essa passagem é feita mediante outro tráfico iníquo: a privatização do público. Dinheiro de todos que passa a ser, ilegitimamente, propriedade de um.

Cristo nada tem a ver com aqueles que roubam órfãos e viúvas e para justificar fazem longas orações. Arrependei-vos os que praticais a iniquidade, pois está próximo o reino de Deus.

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Cristo, nome excelente

Jesus Cristo, nome excelente, pois não há nenhum outro sobre a terra pelo qual importa que sejamos salvos. Salvos hoje, de nossas dores e tragédias pessoais e coletivas. O exemplo dele, no entanto, nos leva a sermos o instrumento da salvação, e não o recipiente. Particularmente para os que já o conhecem.

Quem salva outros a si mesmo se salva. Quem segue pelo caminho salvando seur irmãos cura suas próprias feridas. Quem espalha milagres é ao mesmo tempo alcançado por eles. E, se ao final do caminho a porta estreita levar à cruz, não terá havido nada que tenha valido tanto a pena.

sábado, 28 de novembro de 2009

There is a crack in everything...

Há uma falha, uma fissura, uma rachadura em tudo e em todas as coisas.

Essa é a afirmação da música sombria de Leonard Cohen. Remete a toda dor e sofrimento espalhados por todos os lados, gente em desespero, opressão de um homem sobre o outro. Enquanto eu estou sentado em meu escritório vendo o sol da manhã iluminar minha bela casa - e ouvindo Anthem no Youtube, alguns moram no esgoto. Estou acordado e minhas filhas dormem no quarto ao lado, enquanto tantas filhas não chegaram a suas casas - e algumas não chegarão.

Em poucos minutos vou picar uma banana, que comerei com aveia e açucar. Como hoje é sábado, muitas crianças não têm a merenda escolar e nada comerão pela manhã.

Cohen diz: esqueça sua oferta perfeita, há uma rachadura em tudo, e é por ela que a luz penetra.

Toquem os sinos que ainda podem ser tocados!

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

A interpretação bíblica de Jesus

Autodenominado apóstolo, Paulo alegou ter se encontrado com Jesus. Sua autoridade é autoconcedida. Paulo olha para Jesus Cristo e interpreta sua vida como o Filho do Homem, ele mesmo, não havia feito. A questão que se coloca é: há outra leitura possível?

Os desencontros entre a teologia de Paulo e os evangelhos são evidentes, a ponto de Tiago censurar de maneira até agressiva a ideia da salvação pela fé somente: ...pode semelhante fé salvá-lo?

O conceito da autoridade suprema das Escrituras nos fez, dogmaticamente, fechar os olhos para as inconsistências que se apresentam no Novo Testamento. Como enfrentá-las sem perder a fé que foi erigida sobre a teologia Paulina?

O Cristo que emerge de Paulo não é exatamente o mesmo que viveu na Judeia e na Galileia.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Somente o que for permitido

Kowalski caminhava rapidamente em direção à porta quando um raio queimou o quadro de força de sua casa. A escuridão que tomou conta de sua casa o fez tropeçar no porta-revista que ficava ao lado do sofá, para, em seguida, desabar à frente da escada. A cabeça bateu de leve no primeiro degrau, o suficiente para fazer um galo doído.

Mas, ao mesmo tempo, do outro lado do planeta faltava água em uma pequena ilha da Indonésia.

Quando fazia sua caminhada, na manhã daquele dia, Osmir deu conta de que as mangueiras da capital brasileira já estavam cheias de frutas. Lúcia, que o acompanhava perguntou se ele iria colher algumas para si. Osmir respondeu, com um certo cinismo: só o que for permitido.

A luz não voltou, a água chegou, e as mangas não amadureceram.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Tudo começou com minha desconfiança a respeito de Paulo...

...pois percebi uma grande diferença entre sua mensagem e a de Cristo. Paulo falava de Cristo, não o que Cristo falou. É muito diferente. Ele olha para Cristo e tenta entender sua vida e obra. Cria conceitos, faz teologia. Organiza a igreja, cria inúmeras regras, leis.

Paulo é apóstolo autoproclamado. Seu caminho é distinto daquele de Pedro e demais discípulos. É bem tratado por Pedro, mas dispara contra ele. Paulo é o arauto da verdade, o grande precursor do protestantismo.

Bultman dá graças a Deus por Paulo ter criado o cristianismo como o fez, do contrário, segundo ele, o Caminho teria sido apenas mais uma seita judaica desparecida no tempo.

Paulo trouxe para o evangelho conceitos da filosofia grega que nada tinham a ver com o judaísmo de Cristo e seus discípulos - e prevaleceu.

No mesmo livro colocamos mensagens que chegam próximas à oposição. Nieztche desenvolve essa ideia da oposição entre Paulo e Cristo, em O Anticristo. É categórico a esse respeito. Não tenho condições de fazer a análise tão adequada, mas mesmo que de maneira mais superficial, desconfio de Paulo.

Há coisas boas em Paulo, mas não creio que possamos colocá-lo em pé de igualdade com os evangelhos.

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Sou da direita reacionária

Sempre desconfiei de mim mesmo.

Afinal, cresci assistindo Combate e torcendo pelo sargento americano, representado pelo ator Vic Morrow, na luta contra os malignos e estúpidos nazistas. Aprendi a torcer pela cavalaria contra os apaches. Fui doutrinado em uma teologia protestante que via na União Soviética o Império do Mal e no Mercado Comum Europeu a besta do Apocalipse. Morei em Brasília toda a minha vida - exceto por curtos períodos fora, um deles de um ano na Califórnia. Assistia aos desfiles militares da ditadura no Eixão. Não fazia ideia de que existia uma guerrilha no Araguaia e acreditava que os terroristas procurados pela ditadura estavam errados ao pegar em armas.

O país que eu mais queria conhecer eram os Estados Unidos. Nunca gostei de Karl Marx, e, a bem da verdade, entendia muito pouco de seus textos. Abominava a ideia de que a Albânia era modelo de qualquer coisa que fosse. Nunca entendi como Fidel Castro pudesse ser exemplo de líder a ser seguido. Tinha enorme dificuldade para aceitar a agressividade, arrogância e superioridade moral do pessoal de esquerda.

É verdade que, em alguns momentos, adotei algumas posturas inadequadas em relação a esse passado capitalista e reacionário. Participei bastante do movimento das Diretas Já. Organizei manifestações de apoio à volta da normalidade democrática. Envolvi-me com a Teologia da Missão Integral da Igreja e com a Teologia da Libertação. Filiei-me ao PPS quando o partido ainda era de esquerda. Votei no Lula desde sempre.

Mas, nos dias de hoje, minha convicção se firmou completamente. Não tenho mais dúvidas.

Vejam só: sou contra e luto contra a corrupção. Acredito que a governabilidade é um mito usado para justificar a ladroagem. Sou a favor da Ficha Limpa. Acho que o TCU deve paralisar obras com irregularidades. Penso que corruptos e demais criminosos devem ser presos.

Sou de direita.

domingo, 27 de setembro de 2009

Cohen and Blackmore's Night

Leonard Cohen e Blackmore's Night invadiram minha praia recentemente.

O primeiro descobri a partir de Shrek, filme no qual conheci a música "Hellellujah". Impressionado com música e letra, fui atrás do autor - Cohen. Descobri um universo de letras profundas, proféticas, existencialistas. Encantei-me com Cohen.

"There is a crack in everything, that's how the light gets in"... "and even though it all went wrong I'll stand before the Lord of songs with nothing on my tongue but Hallellujah"... "ring the bells that still can ring, forget your perfect offering", e por aí vai.

Leonard Cohen é um mundo a ser explorado. Do que conheço, nada mais próximo das letras do reino do que ele.

Blackmore's Night é ritmo, melodia e festa. Ritchie Blackmore era um rockeiro do Deep Purple que secretamente ouvia música renascentista. Com Candice Night formou esse grupo que toca em castelos para, no máximo, 3000 pessoas pagando, no máximo, 25 dólares pela entrada. Go figure...

Ouvi-los é agradável, e elevador. Há preciosidades como Wish You Were Here, Diamonds and Rust, Ocean Gipsy e Just Call my Name.

Espero assisti-los ao vivo. Confira.

domingo, 13 de setembro de 2009

Venha o teu reino, seja feita a tua vontade

A despeito de que se trata de uma oração, a frase acima explicita o viés existencialista do evangelho do reino: sua vinda demanda o protagonismo humano, na medida em que o reino só vem se a vontade de Deus é feita, e feita por nós.

Devemos, portanto, agir como se o reino só se manifestasse a partir daquilo que fazemos, do nosso agir.

No entanto, a experiência cotidiana revela o Deus que age em determinados momentos e situações. Sem, no entanto, nos permitir saber com clareza quando, como e porque age.

E porque Deus age dessa maneira incompreensível, devemos orar como se a vinda do reino dependesse só dele.

sábado, 12 de setembro de 2009

No limiar de uma nova compreensão

Talvez o grande desafio do tempo presente seja a redefinição do significado da cruz de Cristo. Não que alguém esteja preocupado com essa temática - ao contrário, a cruz de Cristo está rapidamente desaparecendo do culto cristão protestante, ao mesmo tempo em que continua com os mesmos significados reducionistas no âmbito católico.

Um dos motivos pelos quais a cruz perdeu espaço no culto protestante diz respeito à impossibilidade de se explicar, logicamente, como a morte de Cristo na cruz pode legar ao ser humano a salvação de sua alma. Esse fundamento da fé cristã é dogmático, inexplicável. Creio que a morte de Cristo produz vida, sim, mas não na perspectiva de que o seu sacrifício opera a salvação do ser humano que, condeando ao inferno por causa de seu rompimento com Deus, está agora com ele reconciliado mediante a morte do Cristo na cruz e com presença assegurada na eternidade dos santos.

Como essa ideia não é compreensível ao homem pós-moderno, acabou sendo deixada de lado. Assim, surge o ambiente adequado para o trágico acontecimento que é o progressivo esquecimento, no âmbito protestante, da morte de Cristo, e morte de cruz.

A releitura do fato vai deixar de lado a antiga ideia (central no protestantismo) de que a morte de Cristo é um presente a ser recebido, para concentrar-se na ideia de que a cruz de Cristo é um exemplo a ser seguido - quem quiser salvar a sua vida deverá tomar cada dia a sua própria cruz. A cruz é o resultado natural da vida que Jesus levou. Possivelmente, aqueles que forem comprometidos com os valores do reino de Deus terão o mesmo destino.

A cruz é a consequencia da coerencia de quem viveu crendo que deveria amar de todo coração a seu próximo. De quem denunciou os homens que, no poder, oprimiam seus semelhantes. De quem negou-se a se conformar com uma sociedade despedaçada e sofrida.

Mas, se já esqueceram a ideia do presente recebido, estariam minimamente dispostos a considerar o exemplo a ser seguido?

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Bodes e ovelhas

É o próprio Cristo quem descreve o tribunal no qual ele, com juiz, separa bodes e ovelhas. Paulo e Lutero diriam que a separação seria entre aqueles que foram salvos pela graça e os que não foram. Agostinho e Calvino diriam que a separação seria feita entre os escolhidos para a salvação e os predestinados à perdição. Alguns religiosos diriam que seria entre aqueles que pertencem às suas igrejas os que não pertencem a igreja alguma. O turma próspera não liga para isso, pois para eles o que interessa à fé é apenas ficar rico na terra. Cristo disse que seria entre os que tinham praticado a misericórdia e os que tinham virado as costas para seus irmãos. Cristo trabalha com a figura do justo, e não com a figura do justificado, que surge em Paulo. Enfrente-se tal questão.

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

O Deus que (não) intervém

Há uma grande distância entre o Deus dos calvinista e o Deus dos liberais. O primeiro é o soberano interventor, sem cujos comandos nada acontece. O segundo é o observador que deixou a Criação relegada à sua própria sorte.

Há quem creia que nada se faz sem que seja por intermédio da oração, enquanto outros afirmam que Deus não tem outras pernas, braços e mente que não a nossa.

Não sei dizer quem é Deus, e muito menos compreendo sua participação na história, na existência. Talvez o melhor seja orar como se ele nada fizesse a não ser a partir de nossas orações e agir como se ele só agisse por nosso intermédio. O pior, por certo, é não orar e nada fazer.