Uma pergunta central para a compreensão do fenômeno da formação, expansão e continuidade da religião cristã diz respeito ao seu personagem maior: Jesus, o Cristo. O Cristianismo, afinal, é uma religião fundada na mensagem de Cristo ou na mensagem sobre Cristo? A mensagem de Cristo são suas palavras e ações. A mensagem sobre Cristo é o olhar teológico que Paulo lança sobre Cristo e constrói o fundamento desta religião bimilenial.
A mensagem de Cristo é o reino de Deus e sua justiça. A mensagem de Paulo é Cristo e o significado de sua vida.
Em função da dogmática cristã não é possível discutir as inconveniências percebidas nas contradições entre a mensagem de um e de outro. Por exemplo, é de difícil compreensão a análise teológica que Paulo fornece em Efésios 2:8-10, fundamento do conceito de salvação pela graça, em contraposição com a afirmação de Cristo em Mateus 25:31-46, quando diz que irão para a vida eterna os justos, aqueles que alimentaram os famintos e vestiram os nus. Há que se fazer muita pirotecnia teológica para que seja possível harmonizar esses dois textos. Será necessário dizer que Cristo não queria bem dizer o que disse quando disse o que disse...
São evidentes as distinções entre o pensamento dos discípulos e o de Paulo, e a dissensão entre ele e Pedro. É bastante distinta a experiência da igreja de Jerusalém das demais mencionadas na Bíblia. Não existe qualquer menção de que essas outras tenham experimentado aquela vivência intensa dos valores do reino conforme se viu em Jerusalém. A igreja que viveu a mensagem de Cristo morreu, e permaneceu aquela que foi erigida na mensagem sobre Cristo.
Compilação de minhas reflexões, particularmente teológicas. Embora muitas delas expostas como certezas, tratam apenas das minhas (in)certezas, sem grandes pretensões. É um diário da evolução do "eu creio".
sábado, 28 de fevereiro de 2015
quinta-feira, 27 de março de 2014
Mensagem do deserto - neopentecostalismo às avessas
O esquisito João Batista se alimentava de gafanhoto e mel silvestre, vestia roupas bem diferentes daquelas utilizadas à época, e, ao que tudo indica, morava no deserto. Fora da cidade, ao lado do rio, lançava suas imprecações contra o estado de coisas vigente. Entendia que a sociedade estava corrompida e que todos eram pecadores perdidos. Pregava arrependimento e mudança de vida.
Interessante é que parece que atraía multidões com esse seu jeito extravagante - pelo menos para hoje, não sei bem se era extravagante à época - e com sua pregação condenatória. Instava os ouvintes a se arrependerem para fugir da condenação eterna, pois o juízo se abateria sobre eles: "já está posto o machado à raiz da árvores; toda árvore, pois, que não produz bom fruto é cortada e lançada ao fogo".
Atemorizados, os ouvintes lhe perguntavam: "o que faremos?" E João Batista se revelava um pastor neopentecostal às avessas:
1. Dividam o que têm;
2. Não se aproveitem de suas posições para enriquecer; e
3. Contentem-se com o salário que ganham.
João Batista parece ter sensibilidade particularmente afiada para as questões econômico-financeiros, mas dá conselhos para lá de esquisitos. Não teria chance alguma de ser pastor evangélico.Se entrasse numa igreja evangélica de nossos dias creio que não seria muito bem recebido.
Vale a pena refletir na mensagem do deserto.
Interessante é que parece que atraía multidões com esse seu jeito extravagante - pelo menos para hoje, não sei bem se era extravagante à época - e com sua pregação condenatória. Instava os ouvintes a se arrependerem para fugir da condenação eterna, pois o juízo se abateria sobre eles: "já está posto o machado à raiz da árvores; toda árvore, pois, que não produz bom fruto é cortada e lançada ao fogo".
Atemorizados, os ouvintes lhe perguntavam: "o que faremos?" E João Batista se revelava um pastor neopentecostal às avessas:
1. Dividam o que têm;
2. Não se aproveitem de suas posições para enriquecer; e
3. Contentem-se com o salário que ganham.
João Batista parece ter sensibilidade particularmente afiada para as questões econômico-financeiros, mas dá conselhos para lá de esquisitos. Não teria chance alguma de ser pastor evangélico.Se entrasse numa igreja evangélica de nossos dias creio que não seria muito bem recebido.
Vale a pena refletir na mensagem do deserto.
terça-feira, 18 de fevereiro de 2014
Reflexão do Papa Francisco sobre a pobreza
"Economia e distribuição das entradas
202. A necessidade de resolver as causas estruturais da pobreza não pode esperar; e não apenas por uma exigência pragmática de obter resultados e ordenar a sociedade, mas também para a curar duma mazela que a torna frágil e indigna e que só poderá levá-la a novas crises. Os planos de assistência, que acorrem a determinadas emergências, deveriam considerar-se apenas como respostas provisórias. Enquanto não forem radicalmente solucionados os problemas dos pobres, renunciando à autonomia absoluta dos mercados e da especulação financeira e atacando as causas estruturais da desigualdade social, não se resolverão os problemas do mundo e, em definitivo, problema algum. A desigualdade é a raiz dos males sociais.
203. A dignidade de cada pessoa humana e o bem comum são questões que deveriam estruturar toda a política econômica, mas às vezes parecem somente apêndices adicionados de fora para completar um discurso político sem perspectivas nem programas de verdadeiro desenvolvimento integral. Quantas palavras se tornaram molestas para este sistema! Molesta que se fale de ética, molesta que se fale de solidariedade mundial, molesta que se fale de distribuição dos bens, molesta que se fale de defender os postos de trabalho, molesta que se fale da dignidade dos fracos, molesta que se fale de um Deus que exige um compromisso em prol da justiça. Outras vezes acontece que estas palavras se tornam objecto duma manipulação oportunista que as desonra. A cómoda indiferença diante destas questões esvazia a nossa vida e as nossas palavras de todo o significado (...)
204. Não podemos mais confiar nas forças cegas e na mão invisível do mercado. O crescimento equitativo exige algo mais do que o crescimento econômico, embora o pressuponha; requer decisões, programas, mecanismos e processos especificamente orientados para uma melhor distribuição das entradas, para a criação de oportunidades de trabalho, para uma promoção integral dos pobres que supere o mero assistencialismo. Longe de mim propor um populismo irresponsável, mas a economia não pode mais recorrer a remédios que são um novo veneno, como quando se pretende aumentar a rentabilidade reduzindo o mercado de trabalho e criando assim novos excluídos.
205. Peço a Deus que cresça o número de políticos capazes de entrar num autêntico diálogo que vise efetivamente sanar as raízes profundas e não a aparência dos males do nosso mundo. A política, tão denegrida, é uma sublime vocação, é uma das formas mais preciosas da caridade, porque busca o bem comum. Temos de nos convencer que a caridade 'é o princípio não só das micro-relações estabelecidas entre amigos, na família, no pequeno grupo, mas também das macro-relações como relacionamentos sociais, econômicos, políticos'. Rezo ao Senhor para que nos conceda mais políticos, que tenham verdadeiramente a peito a sociedade, o povo, a vida dos pobres. É indispensável que os governantes e o poder financeiro levantem o olhar e alarguem as suas perspectivas, procurando que haja trabalho digno, instrução e cuidados sanitários para todos os cidadãos. E porque não acudirem a Deus pedindo-Lhe que inspire os seus planos? Estou convencido de que, a partir duma abertura à transcendência, poder-se-ia formar uma nova mentalidade política e econômica que ajudaria a superar a dicotomia absoluta entre a economia e o bem comum social.
206. A economia – como indica o próprio termo – deveria ser a arte de alcançar uma adequada administração da casa comum, que é o mundo inteiro. Todo o ato econômico duma certa envergadura, que se realiza em qualquer parte do planeta, repercute-se no mundo inteiro, pelo que nenhum Governo pode agir à margem duma responsabilidade comum. Na realidade, torna-se cada vez mais difícil encontrar soluções a nível local para as enormes contradições globais, pelo que a política local se satura de problemas por resolver. Se realmente queremos alcançar uma economia global saudável, precisamos, neste momento da história, de um modo mais eficiente de interação que, sem prejuízo da soberania das nações, assegure o bem-estar econômico a todos os países e não apenas a alguns.
207. E qualquer comunidade da Igreja, na medida em que pretender subsistir tranquila sem se ocupar criativamente nem cooperar de forma eficaz para que os pobres vivam com dignidade e haja a inclusão de todos, correrá também o risco da sua dissolução, mesmo que fale de temas sociais ou critique os Governos. Facilmente acabará submersa pelo mundanismo espiritual, dissimulado em práticas religiosas, reuniões infecundas ou discursos vazios.
208. Se alguém se sentir ofendido com as minhas palavras, saiba que as exprimo com estima e com a melhor das intenções, longe de qualquer interesse pessoal ou ideologia política. A minha palavra não é a dum inimigo nem a dum opositor. A mim interessa-me apenas procurar que, quantos vivem escravizados por uma mentalidade individualista, indiferente e egoísta, possam libertar-se dessas cadeias indignas e alcancem um estilo de vida e de pensamento mais humano, mais nobre, mais fecundo, que dignifique a sua passagem por esta terra.
202. A necessidade de resolver as causas estruturais da pobreza não pode esperar; e não apenas por uma exigência pragmática de obter resultados e ordenar a sociedade, mas também para a curar duma mazela que a torna frágil e indigna e que só poderá levá-la a novas crises. Os planos de assistência, que acorrem a determinadas emergências, deveriam considerar-se apenas como respostas provisórias. Enquanto não forem radicalmente solucionados os problemas dos pobres, renunciando à autonomia absoluta dos mercados e da especulação financeira e atacando as causas estruturais da desigualdade social, não se resolverão os problemas do mundo e, em definitivo, problema algum. A desigualdade é a raiz dos males sociais.
203. A dignidade de cada pessoa humana e o bem comum são questões que deveriam estruturar toda a política econômica, mas às vezes parecem somente apêndices adicionados de fora para completar um discurso político sem perspectivas nem programas de verdadeiro desenvolvimento integral. Quantas palavras se tornaram molestas para este sistema! Molesta que se fale de ética, molesta que se fale de solidariedade mundial, molesta que se fale de distribuição dos bens, molesta que se fale de defender os postos de trabalho, molesta que se fale da dignidade dos fracos, molesta que se fale de um Deus que exige um compromisso em prol da justiça. Outras vezes acontece que estas palavras se tornam objecto duma manipulação oportunista que as desonra. A cómoda indiferença diante destas questões esvazia a nossa vida e as nossas palavras de todo o significado (...)
204. Não podemos mais confiar nas forças cegas e na mão invisível do mercado. O crescimento equitativo exige algo mais do que o crescimento econômico, embora o pressuponha; requer decisões, programas, mecanismos e processos especificamente orientados para uma melhor distribuição das entradas, para a criação de oportunidades de trabalho, para uma promoção integral dos pobres que supere o mero assistencialismo. Longe de mim propor um populismo irresponsável, mas a economia não pode mais recorrer a remédios que são um novo veneno, como quando se pretende aumentar a rentabilidade reduzindo o mercado de trabalho e criando assim novos excluídos.
205. Peço a Deus que cresça o número de políticos capazes de entrar num autêntico diálogo que vise efetivamente sanar as raízes profundas e não a aparência dos males do nosso mundo. A política, tão denegrida, é uma sublime vocação, é uma das formas mais preciosas da caridade, porque busca o bem comum. Temos de nos convencer que a caridade 'é o princípio não só das micro-relações estabelecidas entre amigos, na família, no pequeno grupo, mas também das macro-relações como relacionamentos sociais, econômicos, políticos'. Rezo ao Senhor para que nos conceda mais políticos, que tenham verdadeiramente a peito a sociedade, o povo, a vida dos pobres. É indispensável que os governantes e o poder financeiro levantem o olhar e alarguem as suas perspectivas, procurando que haja trabalho digno, instrução e cuidados sanitários para todos os cidadãos. E porque não acudirem a Deus pedindo-Lhe que inspire os seus planos? Estou convencido de que, a partir duma abertura à transcendência, poder-se-ia formar uma nova mentalidade política e econômica que ajudaria a superar a dicotomia absoluta entre a economia e o bem comum social.
206. A economia – como indica o próprio termo – deveria ser a arte de alcançar uma adequada administração da casa comum, que é o mundo inteiro. Todo o ato econômico duma certa envergadura, que se realiza em qualquer parte do planeta, repercute-se no mundo inteiro, pelo que nenhum Governo pode agir à margem duma responsabilidade comum. Na realidade, torna-se cada vez mais difícil encontrar soluções a nível local para as enormes contradições globais, pelo que a política local se satura de problemas por resolver. Se realmente queremos alcançar uma economia global saudável, precisamos, neste momento da história, de um modo mais eficiente de interação que, sem prejuízo da soberania das nações, assegure o bem-estar econômico a todos os países e não apenas a alguns.
207. E qualquer comunidade da Igreja, na medida em que pretender subsistir tranquila sem se ocupar criativamente nem cooperar de forma eficaz para que os pobres vivam com dignidade e haja a inclusão de todos, correrá também o risco da sua dissolução, mesmo que fale de temas sociais ou critique os Governos. Facilmente acabará submersa pelo mundanismo espiritual, dissimulado em práticas religiosas, reuniões infecundas ou discursos vazios.
208. Se alguém se sentir ofendido com as minhas palavras, saiba que as exprimo com estima e com a melhor das intenções, longe de qualquer interesse pessoal ou ideologia política. A minha palavra não é a dum inimigo nem a dum opositor. A mim interessa-me apenas procurar que, quantos vivem escravizados por uma mentalidade individualista, indiferente e egoísta, possam libertar-se dessas cadeias indignas e alcancem um estilo de vida e de pensamento mais humano, mais nobre, mais fecundo, que dignifique a sua passagem por esta terra.
sexta-feira, 2 de agosto de 2013
Amar ao próximo como a si mesmo
O pensamento fragmentário da pós-modernidade encontrou terreno fértil no universo protestante, em função de um dos princípios da Reforma: o sacerdócio universal de todos os crentes. Cada um tem acesso direto a Deus, sem intermediários, abrindo-se a possibilidade de que cada um creia conforme suas próprias convicções e não segundo modelo imposto pela autoridade eclesiástica.
Essa possibilidade contrasta-se com a preferência do crente em ser dirigido por uma liderança, em vez de pensar por si próprio. Os mais astutos "nadam de braçadas" nessa situação, aproveitando-se da ausência de um centro que coordene as atividades religiosas e da boa vontade de fiéis dispostos a segui-los, pagando para isso.
Mais do que um desenvolvimento teológico, o neopentecostalismo é fruto dessa possibilidade histórica, é resultado de um ambiente propício, fértil para seu aparecimento, que só poderia ocorrer na esteira do protestantismo, pelo que já se disse anteriormente.
No ambiente caótico que se instalou, as lideranças do chamado protestantismo histórico projetam duas alternativas: reformar a Reforma, ou promover a unidade. São poucas as possibilidades de sucessos dessas duas linhas de ação.
A Reforma protestante foi realizada por um monge agostiniano contra um inimigo claramente identificável: a Igreja Romana. Essa é uma das razões de seu sucesso. A impossibilidade de reformar a Reforma se estabelece porque não se sabe quem é quem, ou, mais precisamente, contra quem a nova Reforma seria realizada. Quem é inimigo - o neopentecostalismo? Se ele é o vilão, quais são as organizações contra quem o protestantismo histórico vai lutar? Seria impossível delimitar esse universo, em função da enorme fragmentação de comunidades no chamado meio evangélico, cada qual com seus pressupostos teológicos e doutrinários, muitas vezes confusos e não classificáveis.
Promover a unidade do universo evangélico é uma impossibilidade concreta, na medida em que cada igreja protestante tem a faculdade de pensar como quer. E pelo fato de que os líderes dos movimentos de unidade têm óbvias dificuldades em afirmar quem não pode participar deles. O movimento de unidade teria duas possibilidades teóricas de sucesso: primeiramente, a unidade a partir da ação, ou seja, o estabelecimento de uma agenda comum de atividades, que visasse ao bem comum - mas não é razoável pensar na possibilidade de sucesso de uma ação como essa, dado a dificuldade de mobilização e ação social das igrejas evangélicas. A segunda possibilidade, a unidade a partir de um conjunto mínimo de pressupostos teológicos, que pudesse ser ao mesmo tempo catalisador entre os evangélicos históricos e excludente em relação ao neopentecostalismo - ou religião de resultados -, também de difícil concretização.
Não vejo grandes possibilidades de sucesso em nenhuma dessas linhas de ação, embora, no mundo das esperanças, eu vislumbre um universo de cidadãos orientados por uma preocupação minimalista de amar ao próximo como a si mesmo, agindo de maneira responsável em cada situação da vida a partir desse conceito. A crise do protestantismo na pós-modernidade tem a possibilidade de promover o surgimento desse movimento minimalista, que me parece mais próximo daquilo que Cristo viveu e pregou do que as igrejas vêm fazendo ao longo dos séculos.
Essa possibilidade contrasta-se com a preferência do crente em ser dirigido por uma liderança, em vez de pensar por si próprio. Os mais astutos "nadam de braçadas" nessa situação, aproveitando-se da ausência de um centro que coordene as atividades religiosas e da boa vontade de fiéis dispostos a segui-los, pagando para isso.
Mais do que um desenvolvimento teológico, o neopentecostalismo é fruto dessa possibilidade histórica, é resultado de um ambiente propício, fértil para seu aparecimento, que só poderia ocorrer na esteira do protestantismo, pelo que já se disse anteriormente.
No ambiente caótico que se instalou, as lideranças do chamado protestantismo histórico projetam duas alternativas: reformar a Reforma, ou promover a unidade. São poucas as possibilidades de sucessos dessas duas linhas de ação.
A Reforma protestante foi realizada por um monge agostiniano contra um inimigo claramente identificável: a Igreja Romana. Essa é uma das razões de seu sucesso. A impossibilidade de reformar a Reforma se estabelece porque não se sabe quem é quem, ou, mais precisamente, contra quem a nova Reforma seria realizada. Quem é inimigo - o neopentecostalismo? Se ele é o vilão, quais são as organizações contra quem o protestantismo histórico vai lutar? Seria impossível delimitar esse universo, em função da enorme fragmentação de comunidades no chamado meio evangélico, cada qual com seus pressupostos teológicos e doutrinários, muitas vezes confusos e não classificáveis.
Promover a unidade do universo evangélico é uma impossibilidade concreta, na medida em que cada igreja protestante tem a faculdade de pensar como quer. E pelo fato de que os líderes dos movimentos de unidade têm óbvias dificuldades em afirmar quem não pode participar deles. O movimento de unidade teria duas possibilidades teóricas de sucesso: primeiramente, a unidade a partir da ação, ou seja, o estabelecimento de uma agenda comum de atividades, que visasse ao bem comum - mas não é razoável pensar na possibilidade de sucesso de uma ação como essa, dado a dificuldade de mobilização e ação social das igrejas evangélicas. A segunda possibilidade, a unidade a partir de um conjunto mínimo de pressupostos teológicos, que pudesse ser ao mesmo tempo catalisador entre os evangélicos históricos e excludente em relação ao neopentecostalismo - ou religião de resultados -, também de difícil concretização.
Não vejo grandes possibilidades de sucesso em nenhuma dessas linhas de ação, embora, no mundo das esperanças, eu vislumbre um universo de cidadãos orientados por uma preocupação minimalista de amar ao próximo como a si mesmo, agindo de maneira responsável em cada situação da vida a partir desse conceito. A crise do protestantismo na pós-modernidade tem a possibilidade de promover o surgimento desse movimento minimalista, que me parece mais próximo daquilo que Cristo viveu e pregou do que as igrejas vêm fazendo ao longo dos séculos.
terça-feira, 7 de maio de 2013
Impossibilidades da teologia
Teologia é uma tentativa de baixo para cima, do menor para o maior, do finito para o infinito. É tarefa necessariamente inacabada, pois o finito jamais poderia compreender o infinito, até o dia em que o finito se tornasse infinito. Em linguagem bíblica, seria possível ainda utilizar essa lógica para a relação entre o servo e o senhor, a ovelha e o pastor, por exemplo.
Aceitar que alguém, em algum momento da história, ou mesmo mediante um processo histórico já terminado, conseguiu compor um completo conhecimento de Deus, ou ao menos de suas intenções, é a negação da percepção lógica acima exposta.
A crença generalizada de que isso seja possível sempre encontra por trás a noção de privilégio, ou seja, de que o infinito tenha escolhido um determinado finito para a ele se manifestar de maneira especial, dando-lhe o conhecimento pleno de si mesmo. A partir daí, tal finito tornou-se o conhecedor e detentor da verdade.
A despeito de minha tradição protestante, e de minha admiração pelo protestantismo, entendo que essa foi uma prática largamente verificada ao longo da história no âmbito desta tradição religiosa. E não só dela, mas também do cristianismo de maneira ampla e do islamismo.
Pensar assim, no entanto, traz consequências de difícil assimilação. Para alguns, a impossibilidade de conhecimento de Deus (no sentido teológico, não na perspectiva das doutrinas relacionais), ou a ideia de uma teologia sempre em evolução, vai se equivaler à noção de rebaixamento do próprio Deus à categoria de um deus em construção. Para outros, vai gerar um mundo sem paradigmas, referências ou códigos morais, "indispensáveis" à vivência humana.
Obviamente, dentro dessa noção que nada mais é do que uma adaptação de enunciados filosóficos e epistemológicos à teologia, a crítica imediata diz respeito à possibilidade de que mesmo essas noções a respeito do conhecimento de Deus vão ser superadas mediante a evolução do pensamento teológico, e necessariamente perderão o sentido, fato que revela a consequência do relativismo contido nessa ideia.
Minha saída é a fé em Jesus Cristo, e a aceitação de seu ordenamento de amar ao próximo como a si mesmo na condição de valor supremo e referência absoluta na constituição de qualquer teologia. No final, essa solução equivale a um passo no escuro, a uma escolha, a uma decisão não explicável, e, por definição, dogmática. Dado seu valor reconhecidamente universal, e seu caráter minimalista, parece-me ser uma boa escolha.
Aceitar que alguém, em algum momento da história, ou mesmo mediante um processo histórico já terminado, conseguiu compor um completo conhecimento de Deus, ou ao menos de suas intenções, é a negação da percepção lógica acima exposta.
A crença generalizada de que isso seja possível sempre encontra por trás a noção de privilégio, ou seja, de que o infinito tenha escolhido um determinado finito para a ele se manifestar de maneira especial, dando-lhe o conhecimento pleno de si mesmo. A partir daí, tal finito tornou-se o conhecedor e detentor da verdade.
A despeito de minha tradição protestante, e de minha admiração pelo protestantismo, entendo que essa foi uma prática largamente verificada ao longo da história no âmbito desta tradição religiosa. E não só dela, mas também do cristianismo de maneira ampla e do islamismo.
Pensar assim, no entanto, traz consequências de difícil assimilação. Para alguns, a impossibilidade de conhecimento de Deus (no sentido teológico, não na perspectiva das doutrinas relacionais), ou a ideia de uma teologia sempre em evolução, vai se equivaler à noção de rebaixamento do próprio Deus à categoria de um deus em construção. Para outros, vai gerar um mundo sem paradigmas, referências ou códigos morais, "indispensáveis" à vivência humana.
Obviamente, dentro dessa noção que nada mais é do que uma adaptação de enunciados filosóficos e epistemológicos à teologia, a crítica imediata diz respeito à possibilidade de que mesmo essas noções a respeito do conhecimento de Deus vão ser superadas mediante a evolução do pensamento teológico, e necessariamente perderão o sentido, fato que revela a consequência do relativismo contido nessa ideia.
Minha saída é a fé em Jesus Cristo, e a aceitação de seu ordenamento de amar ao próximo como a si mesmo na condição de valor supremo e referência absoluta na constituição de qualquer teologia. No final, essa solução equivale a um passo no escuro, a uma escolha, a uma decisão não explicável, e, por definição, dogmática. Dado seu valor reconhecidamente universal, e seu caráter minimalista, parece-me ser uma boa escolha.
segunda-feira, 8 de abril de 2013
Bonhoeffer e o agir responsável
Bonhoeffer acredita que a primeira tarefa ética é a
suspensão do conhecimento do bem e do mal. Nossa inclinação é refutar o mal,
fugir do caminho mau, e andar pela vereda do bem. Segundo a compreensão de
Bonhoeffer, essa é uma armadilha perigosa, pois a queda do ser humano não
consiste em conhecer o mal, mas o bem e o mal. Assim, a tarefa imperiosa da
ética é a suspensão do conhecimento do bem e do mal. Nessa linha, suspendem-se
necessariamente o certo e o errado, a verdade e a mentira.
Bonhoeffer deixa o ser humano sem chão, e, mais
particularmente, o religioso. Isso porque as religiões se estruturam em torno
de códigos de conduta, que ficam totalmente superados mediante a ideia da
suspensão do conhecimento do bem e do mal. O que ele diz teologicamente, e isso
vem de sua experiência concreta, é que não existe a definição de certo e
errado, ou de bem e mal, por antecedência. Somente na situação concreta é que
se define o que fazer mediante o agir responsável, que tem como referência
obrigatória o amor ao próximo na mesma medida em que se ama a si mesmo.
Bonhoeffer cunhou tais conceitos na prisão, e não teve tempo
de levá-los à experiência comunitária de uma igreja.
Talvez a simples menção ao conceito não nos leve imediatamente
à profundidade do compromisso e da responsabilidade que se estabelecem nessa
abordagem teológica. Para Bonhoeffer, o agir responsável o levou a participar
de um plano para executar Hitler. Segundo ele, seu compromisso com Cristo e com
o próximo não deixava outra possibilidade naquela situação.
Seria possível deixar de lado todas as pré-compreensões em
favor do agir responsável?
quinta-feira, 4 de abril de 2013
O curioso caso de Benjamin Button
O post de hoje é autobiográfico, e nada tem de teológico. Só está aqui porque ficaria pior escrevê-lo no blog político.
Erasmo Carlos, autor de inúmeras ótimas letras, escreveu entre outras a interessantíssima "Sou uma criança, não entendo nada". A música fala de uma criança que era desculpada pela mãe dos erros cometidos por causa de sua idade, por ser uma criança que não entendia nada. Mas, por dentro era um homem e entendia tudo o que se passava. Após se tornar adulto, o mundo virou de cabeça para baixo: "por dentro, com a alma atarantada, sou uma criança, não entendo nada".
É o curioso caso de Benjamin Button: nasceu velho e morreu novo.
Não fui como Erasmo, pois desde novo, também para os outros eu já parecia velho. E, por dentro, como ele, eu entendia tudo. Entendia demais. Tanto que aos 25 a vida estava toda resolvida, sem nada mais a se apresentar ou a se descortinar. Não que eu fosse um mal sujeito, pelo contrário. Apenas que não havia nada mais a se descobrir, dentro de minha visão reducionista.
Eu tinha a palavra final de tudo, ou quase tudo. A receita era simples: ouvia o que os outros diziam, e ao final emitia o meu parecer. Neylton desconfiou de mim: porque você sempre fala por último? Num momento de lucidez, confessei: porque acho que sei de tudo... Fui desmascarado diante de mim mesmo.
Na verdade, falar sobre Benjamin Button aqui faz sentido. Isso porque a minha arrogância advinha da falsa percepção que os religiosos têm, e os protestantes em particular, de que conhecem a verdade. E de que a Bíblia tem a última palavra sobre tudo, desde engenharia genética até culinária, passando por astronomia, sexo e esportes.
Dali, aos poucos e bem devagar a princípio, comecei a perder as rugas a caminho da juventude e da adolescência. Hoje já não estou mais tão velho - tenho muitas dúvidas, e nenhuma pretensão de conhecer a verdade. Não chego ao extremo de Erasmo, de ter a alma atarantada e não entender absolutamente nada. Mas, não estou tão longe disso, também, pois a vida as vezes dói na alma, e entender o mundo e as pessoas é muito difícil!
Não sou como o apóstolo Paulo, que quando era menino falava como menino e agia como menino, mas, depois de se tornar adulto, deixou as coisas próprias de menino. Eu retornei às coisas próprias de menino, de adolescente e de jovem, todas essas pessoas que convivem com o adulto antigo que existiu desde sempre e também continua ativo. Talvez um caso mais complicado do que os de Benjamin Button e Erasmo Carlos.
Erasmo Carlos, autor de inúmeras ótimas letras, escreveu entre outras a interessantíssima "Sou uma criança, não entendo nada". A música fala de uma criança que era desculpada pela mãe dos erros cometidos por causa de sua idade, por ser uma criança que não entendia nada. Mas, por dentro era um homem e entendia tudo o que se passava. Após se tornar adulto, o mundo virou de cabeça para baixo: "por dentro, com a alma atarantada, sou uma criança, não entendo nada".
É o curioso caso de Benjamin Button: nasceu velho e morreu novo.
Não fui como Erasmo, pois desde novo, também para os outros eu já parecia velho. E, por dentro, como ele, eu entendia tudo. Entendia demais. Tanto que aos 25 a vida estava toda resolvida, sem nada mais a se apresentar ou a se descortinar. Não que eu fosse um mal sujeito, pelo contrário. Apenas que não havia nada mais a se descobrir, dentro de minha visão reducionista.
Eu tinha a palavra final de tudo, ou quase tudo. A receita era simples: ouvia o que os outros diziam, e ao final emitia o meu parecer. Neylton desconfiou de mim: porque você sempre fala por último? Num momento de lucidez, confessei: porque acho que sei de tudo... Fui desmascarado diante de mim mesmo.
Na verdade, falar sobre Benjamin Button aqui faz sentido. Isso porque a minha arrogância advinha da falsa percepção que os religiosos têm, e os protestantes em particular, de que conhecem a verdade. E de que a Bíblia tem a última palavra sobre tudo, desde engenharia genética até culinária, passando por astronomia, sexo e esportes.
Dali, aos poucos e bem devagar a princípio, comecei a perder as rugas a caminho da juventude e da adolescência. Hoje já não estou mais tão velho - tenho muitas dúvidas, e nenhuma pretensão de conhecer a verdade. Não chego ao extremo de Erasmo, de ter a alma atarantada e não entender absolutamente nada. Mas, não estou tão longe disso, também, pois a vida as vezes dói na alma, e entender o mundo e as pessoas é muito difícil!
Não sou como o apóstolo Paulo, que quando era menino falava como menino e agia como menino, mas, depois de se tornar adulto, deixou as coisas próprias de menino. Eu retornei às coisas próprias de menino, de adolescente e de jovem, todas essas pessoas que convivem com o adulto antigo que existiu desde sempre e também continua ativo. Talvez um caso mais complicado do que os de Benjamin Button e Erasmo Carlos.
domingo, 10 de março de 2013
Jesus e o templo
É pouco provável a presença de Jesus no templo.
Ele lá esteve duas vezes. Na primeira, quando subiu com seus pais para adorar, fez o que pode para impressionar, para aparecer, talvez por causa da idade. Não voltou com sua família para casa depois dos sacrifícios; ficou discorrendo seu conhecimento para impressionar os mestres da lei. Quando encontrado por seus pais aflitos, saiu-se com uma pérola: vocês não sabiam que me cumpria estar na casa de meu pai? Deixou todos calados.
Alguma coisa aconteceu ao longo de um tempo aproximado de vinte anos: Jesus mudou muito, ou o templo mudou muito. De fato, quem mudou foi Jesus. Já maduro, e completamente consciente de sua caminhada, sua próxima visita ao templo não foi lá muito agradável: derrubou as mesas dos cambistas, causando um bom tumulto no local. De quebra, disse que aquele local era um covil de bandidos e salteadores.
Uma terceira história precisa ser lembrada, ainda que não se refira à presença de Jesus no templo. Trata-se da destruição causada quando de sua morte, quando o véu do santuário se rasgou.
Não me parecer ser muito boa a relação de Jesus com o templo, aliás, parece não haver relação. Jesus preferiu caminhar pela cidade, entre o povo, a frequentar o templo. Não sei porque seria diferente hoje. Acho que Jesus não gosta muito do templo, até porque parece que o templo carrega em si esse risco grande de se tornar um local de negócios, deixando de lado as ideias de casa do Pai e casa de oração para todos os povos.
Ele lá esteve duas vezes. Na primeira, quando subiu com seus pais para adorar, fez o que pode para impressionar, para aparecer, talvez por causa da idade. Não voltou com sua família para casa depois dos sacrifícios; ficou discorrendo seu conhecimento para impressionar os mestres da lei. Quando encontrado por seus pais aflitos, saiu-se com uma pérola: vocês não sabiam que me cumpria estar na casa de meu pai? Deixou todos calados.
Alguma coisa aconteceu ao longo de um tempo aproximado de vinte anos: Jesus mudou muito, ou o templo mudou muito. De fato, quem mudou foi Jesus. Já maduro, e completamente consciente de sua caminhada, sua próxima visita ao templo não foi lá muito agradável: derrubou as mesas dos cambistas, causando um bom tumulto no local. De quebra, disse que aquele local era um covil de bandidos e salteadores.
Uma terceira história precisa ser lembrada, ainda que não se refira à presença de Jesus no templo. Trata-se da destruição causada quando de sua morte, quando o véu do santuário se rasgou.
Não me parecer ser muito boa a relação de Jesus com o templo, aliás, parece não haver relação. Jesus preferiu caminhar pela cidade, entre o povo, a frequentar o templo. Não sei porque seria diferente hoje. Acho que Jesus não gosta muito do templo, até porque parece que o templo carrega em si esse risco grande de se tornar um local de negócios, deixando de lado as ideias de casa do Pai e casa de oração para todos os povos.
sábado, 9 de março de 2013
Reflexões sobre a fé
Tenho concluído que é a fé é um elemento autônomo, sem objeto. Quem tem fé, ordena que uma montanha passe daqui para acolá, e lá se vai o monte de terra. Quem disse isso foi o Senhor Jesus, sem acrescentar qualquer objeto ao elemento fé. Ou seja, Jesus não disse que mover a montanha seria um ato de fé nele, Jesus, mas, simplesmente, um ato de fé.
A fé é um elemento raro - graças ao próprio Deus, que é quem a dá, visto que segundo o apóstolo Paulo se trata de um dom. Mas ele a dá com parcimônia. Imagine, por exemplo, que se Ele me tivesse dado fé, o Aconcágua já estaria ali no Parque Nacional, entre a Granja do Torto e o Colorado. E, depois dessa extravagância, eu traria também alguns dos lagos que circundam San Martin de Los Andes.
Concluo, também, que se a fé é dom, não há como desenvolvê-la, fazê-la crescer. A fé existe ou não, se manifesta ou não, aparece ou não.
Parece-me, também, que há duas naturezas distintas para a fé. Primeiramente a fé que crê: eu creio em Deus, embora nunca o tenha visto. Eu creio na ressurreição de Cristo, embora não tenha sido transmitida pela TV. Em segundo lugar, a fé que faz: é essa que traz o Aconcágua para Brasília.
A primeira fé é indispensável para a construção da esperança. Alguns vão brigar comigo dizendo que é o oposto. Mas, vou ficar com essa sequência mesmo, pelo seguinte: é minha fé na ressurreição de Cristo que me faz esperar a redenção. Então, a fé é indispensável para a construção da esperança.
A segunda fé é um perigo. Basta pensar que eu sou capaz de trazer o Aconcágua para Brasília, para satisfazer meus desejos pessoais. Mas, antes de prosseguir, mais uma distinção conceitual é importante. É necessário pensar em utilização excludente e includente da fé. Veja, o pai que pede proteção ao filho que sai dirigindo a noite não condenou ninguém a algum tipo de perda se o pedido for atendido. No entanto, se eu trouxer o pico mais alto das Américas para Brasília, vou gerar muita tristeza de gente que não mais poderá contemplá-lo.
A fé excludente, portanto, é um perigo. Se eu quero ficar rico, alguns vão ficar pobres. Se eu quero um carro novo, alguns terão um carro velho. Se eu quero muita terra para mim, alguém vai ficar sem terra. E por aí vai. É a fé egocêntrica, que só pensa em si.
Marco Feliciano subiu ao palco de sua igreja e começou a falar sobre o sofrimento em Darfur. Pediu que todos esquecessem suas dores e crises naquele momento para juntos intercederem por aquela terra esquecida. Depois de grande pranto e quebrantamento, decidiu doar 90% do que tem para os miseráveis de Darfur, e convocou os ouvintes a darem com liberalidade também. Eles oraram com fé, e se fez paz em Darfur. O dinheiro enviado ajudou na reconstrução. Se Jesus ressuscitou, e assim eu creio, tal conversão de Marco Feliciano é possível, e assim eu espero.
Até Marco Feliciano será redimido.
A fé é um elemento raro - graças ao próprio Deus, que é quem a dá, visto que segundo o apóstolo Paulo se trata de um dom. Mas ele a dá com parcimônia. Imagine, por exemplo, que se Ele me tivesse dado fé, o Aconcágua já estaria ali no Parque Nacional, entre a Granja do Torto e o Colorado. E, depois dessa extravagância, eu traria também alguns dos lagos que circundam San Martin de Los Andes.
Concluo, também, que se a fé é dom, não há como desenvolvê-la, fazê-la crescer. A fé existe ou não, se manifesta ou não, aparece ou não.
Parece-me, também, que há duas naturezas distintas para a fé. Primeiramente a fé que crê: eu creio em Deus, embora nunca o tenha visto. Eu creio na ressurreição de Cristo, embora não tenha sido transmitida pela TV. Em segundo lugar, a fé que faz: é essa que traz o Aconcágua para Brasília.
A primeira fé é indispensável para a construção da esperança. Alguns vão brigar comigo dizendo que é o oposto. Mas, vou ficar com essa sequência mesmo, pelo seguinte: é minha fé na ressurreição de Cristo que me faz esperar a redenção. Então, a fé é indispensável para a construção da esperança.
A segunda fé é um perigo. Basta pensar que eu sou capaz de trazer o Aconcágua para Brasília, para satisfazer meus desejos pessoais. Mas, antes de prosseguir, mais uma distinção conceitual é importante. É necessário pensar em utilização excludente e includente da fé. Veja, o pai que pede proteção ao filho que sai dirigindo a noite não condenou ninguém a algum tipo de perda se o pedido for atendido. No entanto, se eu trouxer o pico mais alto das Américas para Brasília, vou gerar muita tristeza de gente que não mais poderá contemplá-lo.
A fé excludente, portanto, é um perigo. Se eu quero ficar rico, alguns vão ficar pobres. Se eu quero um carro novo, alguns terão um carro velho. Se eu quero muita terra para mim, alguém vai ficar sem terra. E por aí vai. É a fé egocêntrica, que só pensa em si.
Marco Feliciano subiu ao palco de sua igreja e começou a falar sobre o sofrimento em Darfur. Pediu que todos esquecessem suas dores e crises naquele momento para juntos intercederem por aquela terra esquecida. Depois de grande pranto e quebrantamento, decidiu doar 90% do que tem para os miseráveis de Darfur, e convocou os ouvintes a darem com liberalidade também. Eles oraram com fé, e se fez paz em Darfur. O dinheiro enviado ajudou na reconstrução. Se Jesus ressuscitou, e assim eu creio, tal conversão de Marco Feliciano é possível, e assim eu espero.
Até Marco Feliciano será redimido.
terça-feira, 19 de fevereiro de 2013
Evangelização
Nunca tive muita dificuldade em comunicar minha fé, e, de maneira mais específica, tentar levar outras pessoas a crer no que creio - ou, evangelizar no sentido usual da palavra no meio protestante. Já fiz de tudo em termos de evangelização, até mesmo para provar a mim mesmo minha devoção a Jesus Cristo. Agi assim, ao longo de muitos anos - quase trinta e cinco, considerando que minha militância proselitista começa quando eu tinha a idade de 11 anos.
Fico um pouco pasmo com a dificuldade que outros crentes têm de comunicar sua fé. Há pouco tempo atrás, a igreja que frequento resolveu transferir sua atividade da manhã de domingo para o eixão. Lá fui eu. Entendi que a ideia era evangelizar os transeuntes. Peguei os folhetos e fui fazer isso - praticamente sozinho. Fiz apesar de não mais entender que a boa nova do reino deva ser comunicada com propósitos proselitistas, e, sim, ser vivida no dia a dia.
Deixar de crer que se deva cooptar outros para sua própria fé é um alívio. Pois o crente sempre se sente em dívida com Deus e todos, porque não tem coragem de pregar o evangelho, e muitas almas podem ir diretamente para o inferno se não acatarem a mensagem da salvação em Cristo. Assim, aquele que deixa de crer nessa imposição, sente-se livre de enorme peso.
E, qual foi a mudança que me fez parar de pregar o evangelho?
Em primeiro lugar, a ideia de que existe uma contradição entre salvação da alma e ressurreição dos mortos, e que a pregação genuína do cristianismo é a segunda opção, e não a primeira, que seria uma herança grega embutida no cristianismo, conforme nos explica Oscar Cullmann. O que estaria a nossa frente seria a redenção da humanidade, mediante a ressurreição dos mortos, e não a salvação das almas daqueles que confessaram o nome de Jesus Cristo como seu salvador pessoal, ainda em vida, mediante um passo de fé.
Essa compreensão desloca a atenção que o cristão coloca nas regiões celestes e no futuro distante para a terra e o presente. A redenção que ocorre na história vem como promessa mas é construída pelos discípulos do Salvador.
Em segundo lugar, porque a conversão a um credo e a um código moral não me parecem, hoje, fazer algum sentido. A conversão que a cruz de Cristo requer de alguém é a conversão ao próximo, como única forma de se converter a Deus. Ainda que seu nome não seja confessado em alta voz. A confissão silenciosa de quem ama é muito mais concreta do que a confissão barulhenta de quem continua amando mais a si próprio do que ao próximo, este mal que é a fonte de toda a corrupção humana.
Em terceiro lugar, porque não faz sentido acreditar que a salvação de alguém, qualquer que seja a compreensão desse conceito, depende de uma pregação e uma conversão a um credo. Se isso faz algum sentido, mesmo no ocidente cristão seria impossível oferecer tal pregação a todos, o que se dirá da África e da Ásia.
Conquanto o discurso acima possa - e vá ser - rotulado de liberal, o fato é que a opção pela vivência da boa nova do reino, com suas exigências, é uma tarefa muito mais dura do que o exercício da pregação evangelizadora. É fácil passar a manhã de domingo no eixão distribuindo folhetos e levando a mensagem da salvação, conforme a entende o protestantismo ortodoxo. Difícil é atender às exigências desse evangelho, ou à exigência do evangelho, que é única: amar ao próximo como a si mesmo.
Fico um pouco pasmo com a dificuldade que outros crentes têm de comunicar sua fé. Há pouco tempo atrás, a igreja que frequento resolveu transferir sua atividade da manhã de domingo para o eixão. Lá fui eu. Entendi que a ideia era evangelizar os transeuntes. Peguei os folhetos e fui fazer isso - praticamente sozinho. Fiz apesar de não mais entender que a boa nova do reino deva ser comunicada com propósitos proselitistas, e, sim, ser vivida no dia a dia.
Deixar de crer que se deva cooptar outros para sua própria fé é um alívio. Pois o crente sempre se sente em dívida com Deus e todos, porque não tem coragem de pregar o evangelho, e muitas almas podem ir diretamente para o inferno se não acatarem a mensagem da salvação em Cristo. Assim, aquele que deixa de crer nessa imposição, sente-se livre de enorme peso.
E, qual foi a mudança que me fez parar de pregar o evangelho?
Em primeiro lugar, a ideia de que existe uma contradição entre salvação da alma e ressurreição dos mortos, e que a pregação genuína do cristianismo é a segunda opção, e não a primeira, que seria uma herança grega embutida no cristianismo, conforme nos explica Oscar Cullmann. O que estaria a nossa frente seria a redenção da humanidade, mediante a ressurreição dos mortos, e não a salvação das almas daqueles que confessaram o nome de Jesus Cristo como seu salvador pessoal, ainda em vida, mediante um passo de fé.
Essa compreensão desloca a atenção que o cristão coloca nas regiões celestes e no futuro distante para a terra e o presente. A redenção que ocorre na história vem como promessa mas é construída pelos discípulos do Salvador.
Em segundo lugar, porque a conversão a um credo e a um código moral não me parecem, hoje, fazer algum sentido. A conversão que a cruz de Cristo requer de alguém é a conversão ao próximo, como única forma de se converter a Deus. Ainda que seu nome não seja confessado em alta voz. A confissão silenciosa de quem ama é muito mais concreta do que a confissão barulhenta de quem continua amando mais a si próprio do que ao próximo, este mal que é a fonte de toda a corrupção humana.
Em terceiro lugar, porque não faz sentido acreditar que a salvação de alguém, qualquer que seja a compreensão desse conceito, depende de uma pregação e uma conversão a um credo. Se isso faz algum sentido, mesmo no ocidente cristão seria impossível oferecer tal pregação a todos, o que se dirá da África e da Ásia.
Conquanto o discurso acima possa - e vá ser - rotulado de liberal, o fato é que a opção pela vivência da boa nova do reino, com suas exigências, é uma tarefa muito mais dura do que o exercício da pregação evangelizadora. É fácil passar a manhã de domingo no eixão distribuindo folhetos e levando a mensagem da salvação, conforme a entende o protestantismo ortodoxo. Difícil é atender às exigências desse evangelho, ou à exigência do evangelho, que é única: amar ao próximo como a si mesmo.
quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013
Salvação da alma x ressurreição dos mortos em Les Miserables
Creio que Les Miserables ainda vai render alguns dias de reflexão, tal o impacto que o filme me causou. Como eu nunca havia visto antes, a história propõe a acomodação de dois conceitos cristãos excludentes: salvação da alma e ressurreição dos mortos. Jean Valjean é liberto de seus sofrimentos e recebido na eternidade, cena que é seguida da imagem de Paris redimida e dos insurgentes ressuscitados.
A letra da música final é maravilhosa, e aponta para a redenção da humanidade:
Do you hear the people sing?
Singing the song of angry men?
It is the music of a people
Who will not be slaves again!
When the beating of your heart,
Echoes the beating of the drums,
There is a life about to start,
When tomorrow comes.
Will you join in our crusade?
And will be strong and stand with me?
Beyond the barricade,
Is there a world you long to see?
Then join in the fight,
That will give you the right to be free!
Will you give all you can give,
So that our banner may advance,
Some will fall and some will live,
Will you stand up and take your chance?
The blood of the martyrs,
Will water the meadows of France.
Há uma vida pronta para começar, mas depende de luta, de engajamento. O reino dos céus vem por esforço. A redenção vem na história mediante a participação humana, ainda que seja prometida.
Você vai se juntar à nossa cruzada? Você deseja viver em um outro mundo, que se vê somente por trás da barricada? Nessa jornada, alguns vão cair - você está disposto a correr o risco? A lutar para libertar os escravizados? Há pessoas cantando e marchando, você consegue ouvir? Mas só venceremos quando o bater dos corações superar o bater dos tambores - há pouca gente nas barricadas.
Talvez seja melhor continuar tranquilo, deitado no sofá da sala, aguardando a salvação da alma.
A letra da música final é maravilhosa, e aponta para a redenção da humanidade:
Do you hear the people sing?
Singing the song of angry men?
It is the music of a people
Who will not be slaves again!
When the beating of your heart,
Echoes the beating of the drums,
There is a life about to start,
When tomorrow comes.
Will you join in our crusade?
And will be strong and stand with me?
Beyond the barricade,
Is there a world you long to see?
Then join in the fight,
That will give you the right to be free!
Will you give all you can give,
So that our banner may advance,
Some will fall and some will live,
Will you stand up and take your chance?
The blood of the martyrs,
Will water the meadows of France.
Há uma vida pronta para começar, mas depende de luta, de engajamento. O reino dos céus vem por esforço. A redenção vem na história mediante a participação humana, ainda que seja prometida.
Você vai se juntar à nossa cruzada? Você deseja viver em um outro mundo, que se vê somente por trás da barricada? Nessa jornada, alguns vão cair - você está disposto a correr o risco? A lutar para libertar os escravizados? Há pessoas cantando e marchando, você consegue ouvir? Mas só venceremos quando o bater dos corações superar o bater dos tambores - há pouca gente nas barricadas.
Talvez seja melhor continuar tranquilo, deitado no sofá da sala, aguardando a salvação da alma.
terça-feira, 12 de fevereiro de 2013
Os miseráveis
Assistir a um filme como Les Miserables é um misto de emoção profunda e desabafo. Emoção profunda por ver as boas novas do reino serem pregadas de maneira tão bela. Desabafo contra uma igreja da qual talvez eu já devesse ter desistido, por sua incapacidade absoluta de entender o que significa seguir a Cristo.
Em duas ou três horas a magnífica história de redenção individual e comunitária é explicada de maneira clara como dificilmente ouvimos vindo dos púlpitos das igrejas.
"Do you hear the people sing" me comoveu. Você pode ver algo além das barricadas? Há, sim, uma redenção prometida, da qual somos partícipes ativos, atores. Sem barricadas ela não virá. Foi prometida, mas precisa ser alcançada por meio do esforço.
"Show some mercy" ou algo assim é um denúncia poderosa contra a pobreza, tolerada e perpetuada pelos insensíveis.
Há muitas outras belas lições no filme. Inúmeras. Que história!
domingo, 11 de novembro de 2012
Campos missionários
Era um domingo de manhã, há quatro anos, atrás, quando eu entrei no plenário central da XIII IACC (Conferência Internacional Anti-Corrupção), promovida pela Transparência Internacional (TI), em Atenas. O ambiente era de culto protestante, sensação que aumentou quando Frank Vogl tomou a palavra e discorreu sobre salvar os pobres de sua pobreza.
Frank Vogl é a alma do movimento criado pela TI, seu profeta visionário.
O ânimo daqueles que lutam contra a corrupção assemelha-se ao dos missionários protestantes que partem para todas as regiões do mundo desejosos de compartilhar as boas novas do evangelho. O ambiente no qual se travam os debates se assemelha em espiritualidade aos congressos missionários dessas igrejas.
Para Gianni Vattimo, esse tipo de atividade (combate à corrupção) é nada mais nada menos do que a vivência concreta da mensagem de Cristo, no âmbito do processo de secularização que não significa uma superação do cristianismo, mas sua extensão às questões concretas da humanidade. Esse processo seria, portanto, intrínseco ao cristianismo.
Ontem tivemos o encerramento da XV IACC, aqui em Brasília. No "culto" de encerramento, Barry O'Keefe indicou o país escolhido para a próxima IACC: a Tunísia. Emoção no Plenário. A Jasmine Revolution, que tirou do poder o ditador que por ali ficou por 23 anos ainda é fato recente. Segundo o representante do governo tunisiano, presente ao encontro, aquele país deseja seguir no caminho da integridade na gestão dos recursos públicos. Enquanto ele discursava, eram exibidos slides da revolução, dos protestos, das marchas, das caminhadas. Fiquei emocionado.
Salvo algum fato de maior importância, estarei na Tunísia em 2014, esse campo missionário.
Frank Vogl é a alma do movimento criado pela TI, seu profeta visionário.
O ânimo daqueles que lutam contra a corrupção assemelha-se ao dos missionários protestantes que partem para todas as regiões do mundo desejosos de compartilhar as boas novas do evangelho. O ambiente no qual se travam os debates se assemelha em espiritualidade aos congressos missionários dessas igrejas.
Para Gianni Vattimo, esse tipo de atividade (combate à corrupção) é nada mais nada menos do que a vivência concreta da mensagem de Cristo, no âmbito do processo de secularização que não significa uma superação do cristianismo, mas sua extensão às questões concretas da humanidade. Esse processo seria, portanto, intrínseco ao cristianismo.
Ontem tivemos o encerramento da XV IACC, aqui em Brasília. No "culto" de encerramento, Barry O'Keefe indicou o país escolhido para a próxima IACC: a Tunísia. Emoção no Plenário. A Jasmine Revolution, que tirou do poder o ditador que por ali ficou por 23 anos ainda é fato recente. Segundo o representante do governo tunisiano, presente ao encontro, aquele país deseja seguir no caminho da integridade na gestão dos recursos públicos. Enquanto ele discursava, eram exibidos slides da revolução, dos protestos, das marchas, das caminhadas. Fiquei emocionado.
Salvo algum fato de maior importância, estarei na Tunísia em 2014, esse campo missionário.
quarta-feira, 31 de outubro de 2012
A Reforma Protestante
Fazendo uma análise sincera do quadro protestante atual, parece que não há muito o que comemorar no 495º da Reforma Protestante. Em 31
de outubro de 1517, o monge agostiniano alemão Martinho Lutero pregou
(literalmente) 95 teses na porta da Catedral de Wittenberg, cidade da saxônia
alemã. Tal documento poderia ser pregado hoje, igualmente, em portas de igrejas
evangélicas em protesto contra suas práticas extremamente parecidas com os
exageros de Tetzel[1].
Roger Olson[2],
em seu ótimo livro História da Teologia Cristã, resume o corpo central da
teologia protestante em três pilares aceitos amplamente pelas denominações
históricas: a) a salvação pela graça mediante a fé; b) o sacerdócio universal
de todos os crentes; e c) a autoridade suprema das escrituras. Já procurei
tratar, anteriormente, de uma proposta de revisão desses institutos em post do dia 4/12/2009,
o que não é o tema deste comentário.
No entanto, a característica primária do protestantismo não
é seu ideário, ou sua teologia. Antes, o marco central deste movimento é o
protesto em si, é a capacidade de rebelião contra um estado de coisas que
obscurece Cristo, sua vida, sua cruz e sua ressurreição. Nessa perspectiva é possível
o resgate protestante, enquanto tal tarefa é impossível na perspectiva teológica.
A impossibilidade do resgate se dá por dois motivos. O
primeiro deles, em função da necessária superação daqueles três institutos teológicos
mencionados anteriormente, conforme a análise proposta no texto citado de meu
blog, considerando que os reformadores de hoje querem uma volta àqueles princípios. O segundo, porque a ideia do sacerdócio universal de todos os crentes é o
germe da autodestruição do protestantismo enquanto sistema teológico, devido à
sua necessária fragmentação, largamente praticada atualmente. É impossível
reverter esse quadro.
Em minha análise limitada e tendenciosa, considero fundamental e
positiva a contribuição do protestantismo para a formação do Ocidente, que
segundo Vattimo[3]
deve ser necessariamente identificado com Cristandade. Para ele, o atual
fenômeno de esvaziamento do cristianismo, na Europa, é um processo interno,
intrínseco ao cristianismo, e não sua superação, situação essa que se
estabelece, principalmente, no seio das igrejas protestantes. A consequência
natural desse pensamento é ver na evolução política desses países a
transposição dos valores cristãos – e notadamente protestantes – para a prática
quotidiana comunitária, em um movimento que não mais se vale da figura de
Cristo mas o segue de maneira concreta.
Do outro lado do oceano, a nação que continua firme em sua
prática religiosa mantém profundas rupturas internas, e, no âmbito externo,
conspira politicamente contra regimes que a desagradam chegando a despejar
bombas sobre alguns deles. O esvaziamento do protestantismo europeu, assim,
seria um caminho mais identificado com Cristo do que o protestantismo
norte-americano, considerada principalmente sua vertente fundamentalista.
Nesse quadro, ao qual necessariamente acrescentamos a
realidade brasileira, muito distinta da europeia e da norte-americana, como já se disse, não cabe
a hipótese de resgate teológico do protestantismo, a despeito da boa intenção
de muitos pregadores que ressuscitaram mais recentemente a temática da salvação
pela graça, mediante a fé somente. Pois esse resgate, além de inviável, dado à
fragmentação do universo protestante, não faz sentido quanto ao conteúdo dos
fundamentos teológicos, em um mundo cujas perguntas não mais podem ser
respondidas por eles.
A alma protestante, no entanto, como já se disse, é o
protesto. E, nesse sentido, o protestantismo está vivo, até mesmo naqueles que
procuram promover o seu resgate teológico.
Penso que a possibilidade de protesto nos dias de hoje é um
retorno minimalista à vida e à pregação de Cristo, ao discipulado como
identidade com o Mestre, e à circunscrição de toda experiência religiosa à sua
mensagem central: amar ao próximo como a si mesmo. Fora disso, creio que são
muito pequenas as possibilidades de permanência e relevância de qualquer
movimento que queira manter a identidade cristã. O retorno minimalista a
Cristo, no entanto, não prescinde da denúncia, entre outras também possíveis,
contra o maquiavelismo das igrejas neopentecostais, a insanidade das igrejas em
células que promovem o cabresto dos crentes como sinônimo de discipulado, a
dominação das igrejas históricas pelos seus clérigos e o poderio e ostentação
ainda perturbadores da igreja católica.
[1]
Johann Tetzel foi padre dominicano, célebre pela venda de indulgências para a
construção da Basílica de São Pedro, considerado o autor da frase “ao som de
cada moeda que cai neste cofre uma alma desprega do purgatório e voa para o
paraíso”.
[2]
Professor de Teologia na Baylor University, Waco Texas.
[3]
Filósofo católico italiano.
quinta-feira, 10 de maio de 2012
O discípulo precisa professar o nome do mestre?
Nova pausa em Isaías - cujo estudo provoca reflexões intensas.
Um discípulo precisa professar, divulgar o nome de seu mestre para ser efetivamente discípulo? Se eu adotar a resistência não-violenta diante de uma situação crítica de opressão não irá demorar muito para que alguém me qualifique como discípulo de Mohandas "Mahatma" Gandhi, ou de Martin Luther King. Ainda que eu mesmo não tenha conhecimento da existência desse movimento na história.
A obrigatoriedade existente no protestantimo de se professar o nome de Cristo como condição para a salvação conduz a uma situação contraditória: professantes que não são discípulos, pois não imitam o mestre. De outro lado, há aqueles que amam o próximo como a si mesmos sem professar o nome de Cristo. São eles seus discípulos? É possível ser discípulo de Cristo sem professar o seu nome?
O próprio Cristo nos traz uma situação análoga. O pai pede a dois filhos que façam algo. Um diz que faria mas não faz. O outro diz que não faria mas faz. Cristo pergunta: quem fez a vontade do Pai? Temos que avaliar bem o valor relativo da confissão, particularmente quando ela é absolutamente despegada da prática da vontade do Pai.
Um discípulo precisa professar, divulgar o nome de seu mestre para ser efetivamente discípulo? Se eu adotar a resistência não-violenta diante de uma situação crítica de opressão não irá demorar muito para que alguém me qualifique como discípulo de Mohandas "Mahatma" Gandhi, ou de Martin Luther King. Ainda que eu mesmo não tenha conhecimento da existência desse movimento na história.
A obrigatoriedade existente no protestantimo de se professar o nome de Cristo como condição para a salvação conduz a uma situação contraditória: professantes que não são discípulos, pois não imitam o mestre. De outro lado, há aqueles que amam o próximo como a si mesmos sem professar o nome de Cristo. São eles seus discípulos? É possível ser discípulo de Cristo sem professar o seu nome?
O próprio Cristo nos traz uma situação análoga. O pai pede a dois filhos que façam algo. Um diz que faria mas não faz. O outro diz que não faria mas faz. Cristo pergunta: quem fez a vontade do Pai? Temos que avaliar bem o valor relativo da confissão, particularmente quando ela é absolutamente despegada da prática da vontade do Pai.
terça-feira, 17 de abril de 2012
Crise profunda - Isaías 3
Deus, o provedor de Israel, retira o sustento que dá à nação. A situação se tornará tão crítica, e os recursos tão escassos, que não haverá quem deseje governar o país. Aquele a quem sobrou uma roupa é convidado a assumir o trono, que já foi de Davi, mas recusa: ele não é médico - as doenças se espalharam -, e não tem sustento para si e para sua casa.
Como já se viu antes, o povo daquele país afronta seu Deus: "entre o povo, oprimem uns aos outros, cada um, o seu próximo (...) sua língua e as suas obras são contra o Senhor". Pecam contra si mesmos, e fazem mal à sua própria alma. E isso terá consequências graves: "mal lhe irá, porque a sua paga será o que as suas próprias mãos fizeram". Aos poderosos, falta um mínimo de decência: "o que roubaste do pobre está em vossa casa".
Deus diz que oprimir os pobres é uma insanidade: "que há convosco que esmagais o meu povo e moeis a face dos pobres?"
Intrigante é a causa de Deus contra "as filhas de Sião", as hebreias, que andavam de pescoço empinado, cínicas. Faz uma longa lista de seus apetrechos de beleza para, ao final, vaticinar contra elas um destino terrível: em lugar de perfume, podridão, em lugar de cinta, corda, em lugar de encrespadura de cabelo, calvície.
Os homens iriam morrer, e sete mulheres lançariam mão de apenas um homem.
Cenário negro para a terra corrupta.
Como já se viu antes, o povo daquele país afronta seu Deus: "entre o povo, oprimem uns aos outros, cada um, o seu próximo (...) sua língua e as suas obras são contra o Senhor". Pecam contra si mesmos, e fazem mal à sua própria alma. E isso terá consequências graves: "mal lhe irá, porque a sua paga será o que as suas próprias mãos fizeram". Aos poderosos, falta um mínimo de decência: "o que roubaste do pobre está em vossa casa".
Deus diz que oprimir os pobres é uma insanidade: "que há convosco que esmagais o meu povo e moeis a face dos pobres?"
Intrigante é a causa de Deus contra "as filhas de Sião", as hebreias, que andavam de pescoço empinado, cínicas. Faz uma longa lista de seus apetrechos de beleza para, ao final, vaticinar contra elas um destino terrível: em lugar de perfume, podridão, em lugar de cinta, corda, em lugar de encrespadura de cabelo, calvície.
Os homens iriam morrer, e sete mulheres lançariam mão de apenas um homem.
Cenário negro para a terra corrupta.
sexta-feira, 6 de abril de 2012
Páscoa
Pausa em Isaías.
A chamada semana santa é o evento mais importante do cristianismo. Nesses dias comemoram-se os dois acontecimentos fundamentais para a fé cristã: a morte e a ressurreição de Jesus. No entanto, as igrejas limitam-se a umas poucas celebrações, sem explorar com mais intensidade os significados daqueles acontecimentos e sem propor a seus fiéis uma reflexão acerca deles.
Passa-se pela semana santa como se fosse outra qualquer, sem maiores mudanças. Mesmo as tradições repetitivas e destituídas de espiritualidade foram perdidas, como a abstinência de carne ao longo da quaresma e o espancamento público de Judas. Os protestantes deixaram de realizar cultos na quinta-feira a noite e na sexta-feira de manhã. Alguns católicos ainda se abstêm da carne na sexta-feira. No domingo, missas e cultos celebram a ressurreição.
Não é pouca coisa que se está perdendo. A essência da mensagem cristã é a morte sacrificial de Cristo em favor do ser humano. A ressurreição é o anúncio da vida eterna e a fonte da esperança cristã.
Daqui a pouco celebraremos a ceia aqui em casa, pois não concordamos com esse abandono que se faz da morte de Cristo. Vamos ler um texto que fizemos juntando os quatro evangelhos, completando as omissões de cada um, com uma narrativa mais detalhada do evento da morte de Cristo, e também da ressurreição.
A cruz de Cristo carrega mensagens poderosas para os dias de hoje. Vou tentar desenvolver uma delas.
Jesus levou uma vida simples, despojada, cujo foco era pregar a vinda do reino de Deus, curar os doentes e ensinar a todos. Ao viver dessa maneira, irritou profundamente os sacerdotes, que, muito ao contrário disso, comandavam a vida em Israel em função de seu poder político-religioso, mediante a exploração econômica das atividades rituais dos judeus. Não só isso; dominavam o povo mediante o controle opressivo de suas práticas religiosas, contando para isso com uma aliança estratégica com os representantes locais do poder romano, que ocupava aquela região geográfica. A condenação de Jesus se dá por razões óbvias.
O sacerdócio foi, desde muito tempo, a fonte da corrupção religiosa em Israel. Eles foram denunciados repetidas vezes pelos profetas. A essência dessa corrupção está numa mistura explosiva: sustento financeiro, poder político e controle das práticas religiosas.
É do templo que os sacerdotes retiram seu sustento. Esse fato gera, necessariamente, uma situação conflitiva, em função da qual, inúmeras vezes, o sacerdote judeu de ontem e os sacerdotes cristãos de hoje, confundem meios e fins. De maneira muito natural, o sacerdócio vai se tornando uma carreira, e o objetivo principal do desempenho das atividades sacerdotais passam a ser, naturalmente, o sustento próprio. A situação de agrava quando o sacerdócio carismático e personalista encontra concordância dos fiéis em que os recursos do templo sejam totalmente controlados pelo próprio sacerdote.
Esse fenômeno não é uma característica exclusiva do sacerdócio. Ele se manifesta em outras atividades nas quais o sustento financeiro não decorre diretamente de uma atividade comercial ou econômica, como ocorre também no caso da política partidária e no universo das organizações não governamentais (OnGs).
Jesus não se valeu de qualquer recurso advindo de suas atividades. Pelo contrário, tomou o caminho do esvaziamento, que o levou à morte na cruz na qual esteve despido até mesmo de suas roupas. Não deixou qualquer herança de natureza econômico-financeira.
Juntamente com a mensagem tão cristalina que se tira desse fato, vale lembrar que no momento de sua morte rasga-se o véu do santuário, o elemento simbólico mais precioso do poder sacerdotal. Pelo véu passava apenas o sumo-sacerdote, uma vez por ano. Rompido, os sacerdotes não são mais necessários, qualquer um se achega ao lugar santo, até mesmo porque o lugar santo não é mais um lugar, mas uma situação - o reino de Deus está entre vós. Foi suprimido o local físico da adoração, que passa a ser qualquer um no qual a vontade de Deus se realiza, passa a ser o local da efetivação, da concretização do amor ao próximo, a mensagem central do reino.
Igrejas tendem a repetir a experiência do templo judeu, e padres e pastores a repetir a experiência sacerdotal judia. A despeito da clara mensagem de Jesus, por razões que não cabe discutir aqui, o cristianismo cada dia mais retorna a esse modelo condenado por aquele que, supostamente, seria o motivo de tal religiosidade - Cristo.
O Cristo que será celebrado nestes dias é apenas sombra do Cristo histórico. Sua adoração não implica nenhuma reflexão sobre o que foi sua vida, apenas a visão sobre um Cristo idealizado, salvador do mundo, que não tem muito a nos dizer nos dias de hoje. É uma adoração esquizofrênica: não implica identidade ou discipulado. A grande ironia de tudo isso é que quem controla, hoje, a adoração que é feita a Cristo são justamente os sacerdotes, aqueles a quem Cristo rejeitou, rasgando o véu de seu poder corrupto.
Recentemente, Eliana Calmon denunciou os bandidos de toga do Poder Judiciário. Alguns espernearam. Juizes íntegros não se sentiram ameaçados pelas duras palavras da ministra. Sacerdotes do bem não se sintam atacados por esse texto - ele não foi escrito contra vocês.
A chamada semana santa é o evento mais importante do cristianismo. Nesses dias comemoram-se os dois acontecimentos fundamentais para a fé cristã: a morte e a ressurreição de Jesus. No entanto, as igrejas limitam-se a umas poucas celebrações, sem explorar com mais intensidade os significados daqueles acontecimentos e sem propor a seus fiéis uma reflexão acerca deles.
Passa-se pela semana santa como se fosse outra qualquer, sem maiores mudanças. Mesmo as tradições repetitivas e destituídas de espiritualidade foram perdidas, como a abstinência de carne ao longo da quaresma e o espancamento público de Judas. Os protestantes deixaram de realizar cultos na quinta-feira a noite e na sexta-feira de manhã. Alguns católicos ainda se abstêm da carne na sexta-feira. No domingo, missas e cultos celebram a ressurreição.
Não é pouca coisa que se está perdendo. A essência da mensagem cristã é a morte sacrificial de Cristo em favor do ser humano. A ressurreição é o anúncio da vida eterna e a fonte da esperança cristã.
Daqui a pouco celebraremos a ceia aqui em casa, pois não concordamos com esse abandono que se faz da morte de Cristo. Vamos ler um texto que fizemos juntando os quatro evangelhos, completando as omissões de cada um, com uma narrativa mais detalhada do evento da morte de Cristo, e também da ressurreição.
A cruz de Cristo carrega mensagens poderosas para os dias de hoje. Vou tentar desenvolver uma delas.
Jesus levou uma vida simples, despojada, cujo foco era pregar a vinda do reino de Deus, curar os doentes e ensinar a todos. Ao viver dessa maneira, irritou profundamente os sacerdotes, que, muito ao contrário disso, comandavam a vida em Israel em função de seu poder político-religioso, mediante a exploração econômica das atividades rituais dos judeus. Não só isso; dominavam o povo mediante o controle opressivo de suas práticas religiosas, contando para isso com uma aliança estratégica com os representantes locais do poder romano, que ocupava aquela região geográfica. A condenação de Jesus se dá por razões óbvias.
O sacerdócio foi, desde muito tempo, a fonte da corrupção religiosa em Israel. Eles foram denunciados repetidas vezes pelos profetas. A essência dessa corrupção está numa mistura explosiva: sustento financeiro, poder político e controle das práticas religiosas.
É do templo que os sacerdotes retiram seu sustento. Esse fato gera, necessariamente, uma situação conflitiva, em função da qual, inúmeras vezes, o sacerdote judeu de ontem e os sacerdotes cristãos de hoje, confundem meios e fins. De maneira muito natural, o sacerdócio vai se tornando uma carreira, e o objetivo principal do desempenho das atividades sacerdotais passam a ser, naturalmente, o sustento próprio. A situação de agrava quando o sacerdócio carismático e personalista encontra concordância dos fiéis em que os recursos do templo sejam totalmente controlados pelo próprio sacerdote.
Esse fenômeno não é uma característica exclusiva do sacerdócio. Ele se manifesta em outras atividades nas quais o sustento financeiro não decorre diretamente de uma atividade comercial ou econômica, como ocorre também no caso da política partidária e no universo das organizações não governamentais (OnGs).
Jesus não se valeu de qualquer recurso advindo de suas atividades. Pelo contrário, tomou o caminho do esvaziamento, que o levou à morte na cruz na qual esteve despido até mesmo de suas roupas. Não deixou qualquer herança de natureza econômico-financeira.
Juntamente com a mensagem tão cristalina que se tira desse fato, vale lembrar que no momento de sua morte rasga-se o véu do santuário, o elemento simbólico mais precioso do poder sacerdotal. Pelo véu passava apenas o sumo-sacerdote, uma vez por ano. Rompido, os sacerdotes não são mais necessários, qualquer um se achega ao lugar santo, até mesmo porque o lugar santo não é mais um lugar, mas uma situação - o reino de Deus está entre vós. Foi suprimido o local físico da adoração, que passa a ser qualquer um no qual a vontade de Deus se realiza, passa a ser o local da efetivação, da concretização do amor ao próximo, a mensagem central do reino.
Igrejas tendem a repetir a experiência do templo judeu, e padres e pastores a repetir a experiência sacerdotal judia. A despeito da clara mensagem de Jesus, por razões que não cabe discutir aqui, o cristianismo cada dia mais retorna a esse modelo condenado por aquele que, supostamente, seria o motivo de tal religiosidade - Cristo.
O Cristo que será celebrado nestes dias é apenas sombra do Cristo histórico. Sua adoração não implica nenhuma reflexão sobre o que foi sua vida, apenas a visão sobre um Cristo idealizado, salvador do mundo, que não tem muito a nos dizer nos dias de hoje. É uma adoração esquizofrênica: não implica identidade ou discipulado. A grande ironia de tudo isso é que quem controla, hoje, a adoração que é feita a Cristo são justamente os sacerdotes, aqueles a quem Cristo rejeitou, rasgando o véu de seu poder corrupto.
Recentemente, Eliana Calmon denunciou os bandidos de toga do Poder Judiciário. Alguns espernearam. Juizes íntegros não se sentiram ameaçados pelas duras palavras da ministra. Sacerdotes do bem não se sintam atacados por esse texto - ele não foi escrito contra vocês.
domingo, 1 de abril de 2012
A soberba do que tem muito - Isaías 2
A previsão de Isaías é espantosa: nações desejando aprender, conhecer os caminhos de Deus. Elas afluirão para Sião, de onde sairá a lei, para Jerusalém, de onde sairá a palavra do Senhor. Nesse momento, Deus julgará entre as nações, mas, surpreendentemente, o resultado é que elas serão corrigidas, e converterão suas espadas em relhas de arados e suas lanças em podadeiras, e a guerra terá fim: uma nação não levantará a espada contra outra nação.
Deus reclama, novamente, e passa a listar os pecados da casa de Jacó:
- Adotaram a corrupção do Oriente;
- Tornaram-se agoureiros;
- Associaram-se com filhos de estranhos;
- Enriqueceram-se;
- Encheram a terra de ídolos.
Daqui vale destacar a condenação do enriquecimento, cuja conceituação é muito interessante: muita prata, tesouros sem conta, muitos carros e cavalos. Onde está o erro, aqui? O livro de Deuteronômio já havia falado sobre isso. Discorrendo acerca do tempo em que os hebreus viriam a ter um rei, o Senhor assim os admoesta:
"Quando entrares na terra que te dá o Senhor (...) estabelecerás com efeito, sobre ti, como rei aquele que o Senhor, teu Deus, escolher (...) porém este não multiplicará para si cavalos (...) tampouco para si multiplicará mulheres, para que seu coração não desvie; nem multiplicará muito para si prata ou ouro".
O conceito do muito tem a ver com a soberba e a altivez que decorrem das posses adquiridas, tema que Isaías trata logo a seguir:
"Os olhos altivos dos homens serão abatidos, sua altivez será humilhada".
E se faz uma descrição ampla da destruição dos altivos, do abate dos arrogantes, dos que pensam de si mesmo como não convém. A linguagem é dura:
"Porque o dia do Senhor dos Exércitos será contra todo soberbo (...) contra todos os cedros do Líbano, altos (...) contra todos os carvalhos de Basã (...) contra todos os montes altos (...) contra todos os navios de Társis (...) A arrogância do homem será abatida e a sua altivez será humilhada (...) Afastai-vos pois do homem cujo fôlego está no seu nariz".
O Senhor se compraz daquele que, mesmo não o conhecendo, tem um coração contrito, agradecido e humilde, e se coloca contra altivos, soberbos e arrogantes.
Naquele dia "só o Senhor será exaltado". Vamos ver se conseguimos uma boa abordagem dessa questão mais a frente. Em algumas passagens como essa, ficamos com a impressão de que o Senhor é um deus manhoso, que exige adoração para não derramar sua fúria sobre todos, um deus que precisa ser pacificado e acalmado mediante oferendas.
Deus reclama, novamente, e passa a listar os pecados da casa de Jacó:
- Adotaram a corrupção do Oriente;
- Tornaram-se agoureiros;
- Associaram-se com filhos de estranhos;
- Enriqueceram-se;
- Encheram a terra de ídolos.
Daqui vale destacar a condenação do enriquecimento, cuja conceituação é muito interessante: muita prata, tesouros sem conta, muitos carros e cavalos. Onde está o erro, aqui? O livro de Deuteronômio já havia falado sobre isso. Discorrendo acerca do tempo em que os hebreus viriam a ter um rei, o Senhor assim os admoesta:
"Quando entrares na terra que te dá o Senhor (...) estabelecerás com efeito, sobre ti, como rei aquele que o Senhor, teu Deus, escolher (...) porém este não multiplicará para si cavalos (...) tampouco para si multiplicará mulheres, para que seu coração não desvie; nem multiplicará muito para si prata ou ouro".
O conceito do muito tem a ver com a soberba e a altivez que decorrem das posses adquiridas, tema que Isaías trata logo a seguir:
"Os olhos altivos dos homens serão abatidos, sua altivez será humilhada".
E se faz uma descrição ampla da destruição dos altivos, do abate dos arrogantes, dos que pensam de si mesmo como não convém. A linguagem é dura:
"Porque o dia do Senhor dos Exércitos será contra todo soberbo (...) contra todos os cedros do Líbano, altos (...) contra todos os carvalhos de Basã (...) contra todos os montes altos (...) contra todos os navios de Társis (...) A arrogância do homem será abatida e a sua altivez será humilhada (...) Afastai-vos pois do homem cujo fôlego está no seu nariz".
O Senhor se compraz daquele que, mesmo não o conhecendo, tem um coração contrito, agradecido e humilde, e se coloca contra altivos, soberbos e arrogantes.
Naquele dia "só o Senhor será exaltado". Vamos ver se conseguimos uma boa abordagem dessa questão mais a frente. Em algumas passagens como essa, ficamos com a impressão de que o Senhor é um deus manhoso, que exige adoração para não derramar sua fúria sobre todos, um deus que precisa ser pacificado e acalmado mediante oferendas.
domingo, 25 de março de 2012
A derrocada e a redenção de Israel - Isaías 1
Isaías, filho de Amoz, denunciou que Israel era, para o Senhor (YHWH) como um filho rebelde. Fez isso com palavras muito duras: nação pecaminosa, povo carregado de iniquidade, raça de malignos, filhos corruptores. Dada a relação direta que se estabelecia entre a permanência nos caminhos e estatudos do Senhor e a realidade sócio-econômica daquela nação, tal situação conduzia a uma realidade terrível: terra assolada, cidades consumidas pelo fogo, lavoura devorada por estranhos.
Essa relação é bem clara e explicitada no tecto: se quiserdes e me ouvirdes, comereis o melhor desta terra; mas, se recusardes e fordes rebeldes, sereis devorados à espada; porque a boca do Senhor o disse.
O Senhor diz, por meio de Isaías, que abomina os ritos sacrificiais dissociados da vida reta: estou farto de holocaustos, o incenso para mim é uma abominação, minha alma aborrece as vossas solenidades. A causa disso tudo é explicada com muita clareza: não posso suportar iniquidade associada ao ajuntamento solene. O Senhor não suporta tal hipocrisia. Mas, o que seria a iniquidade daquele povo? Conquanto nossos padrões morais acenem imediatamente com algumas possibilidades, provavelmente nossa lista seja bem diferente daquela que vai ser apresentada por Isaías a seguir. Vejamos.
- Vossas mãos estão cheias de sangue.
- Vossos príncipes são rebeldes e companheiros de ladrões, amam o suborno e correm atrás de recompensas.
- Vossos príncipes não defendem o direito do órfão e não chega perante eles a causa das viúvas.
E o que o Senhor requer?
- Tirai a maldade dos vossos atos de diante dos meus olhos.
- Cessai de fazer o mal e aprendei a fazer o bem.
- Atendei à justiça e repreendei ao opressor.
- Defendei o direito do órfão e pleiteai a causa das viúvas.
No entanto, sem outra explicação a não ser o fato de que para o Senhor as relações não se estabelecem exclusivamente a partir de relações causais, há a promessa de redenção para Israel: Sião será redimida pelo direito e os que se arrependem, pela justiça. Restando, todavia, penalidade para transgressores e pecadores: serão juntamente destruídos.
Sim, o Senhor vai reclamar, em outros textos, do fato de Israel ter buscado e adorado outros deuses. Nesse texto, no entanto, não menciona essa questão. O problema aqui é a injustiça, o desamor, a destruição dos fracos e excluídos. O texto é muito claro a esse respeito.
Quanto à redenção de Israel, não ocorreu. Acredito que venha no decurso da história, não fora dela. Talvez em modo ampliado. Creio que no próprio livro de Isaías, o Senhor que até aqui é conhecido como o Deus de Israel vai ser apresentado como o único Deus. Daí pode se esperar um alcance mais amplo para a redenção. Vamos aguardar a leitura dos próximos capítulos para ver aonde nos leva essa aventura.
Observação final: ao explicitar o que é a iniquidade cometida pela nação de Israel o Senhor explica que o protagonismo naquela questão é dos príncipes do povo.
Essa relação é bem clara e explicitada no tecto: se quiserdes e me ouvirdes, comereis o melhor desta terra; mas, se recusardes e fordes rebeldes, sereis devorados à espada; porque a boca do Senhor o disse.
O Senhor diz, por meio de Isaías, que abomina os ritos sacrificiais dissociados da vida reta: estou farto de holocaustos, o incenso para mim é uma abominação, minha alma aborrece as vossas solenidades. A causa disso tudo é explicada com muita clareza: não posso suportar iniquidade associada ao ajuntamento solene. O Senhor não suporta tal hipocrisia. Mas, o que seria a iniquidade daquele povo? Conquanto nossos padrões morais acenem imediatamente com algumas possibilidades, provavelmente nossa lista seja bem diferente daquela que vai ser apresentada por Isaías a seguir. Vejamos.
- Vossas mãos estão cheias de sangue.
- Vossos príncipes são rebeldes e companheiros de ladrões, amam o suborno e correm atrás de recompensas.
- Vossos príncipes não defendem o direito do órfão e não chega perante eles a causa das viúvas.
E o que o Senhor requer?
- Tirai a maldade dos vossos atos de diante dos meus olhos.
- Cessai de fazer o mal e aprendei a fazer o bem.
- Atendei à justiça e repreendei ao opressor.
- Defendei o direito do órfão e pleiteai a causa das viúvas.
No entanto, sem outra explicação a não ser o fato de que para o Senhor as relações não se estabelecem exclusivamente a partir de relações causais, há a promessa de redenção para Israel: Sião será redimida pelo direito e os que se arrependem, pela justiça. Restando, todavia, penalidade para transgressores e pecadores: serão juntamente destruídos.
Sim, o Senhor vai reclamar, em outros textos, do fato de Israel ter buscado e adorado outros deuses. Nesse texto, no entanto, não menciona essa questão. O problema aqui é a injustiça, o desamor, a destruição dos fracos e excluídos. O texto é muito claro a esse respeito.
Quanto à redenção de Israel, não ocorreu. Acredito que venha no decurso da história, não fora dela. Talvez em modo ampliado. Creio que no próprio livro de Isaías, o Senhor que até aqui é conhecido como o Deus de Israel vai ser apresentado como o único Deus. Daí pode se esperar um alcance mais amplo para a redenção. Vamos aguardar a leitura dos próximos capítulos para ver aonde nos leva essa aventura.
Observação final: ao explicitar o que é a iniquidade cometida pela nação de Israel o Senhor explica que o protagonismo naquela questão é dos príncipes do povo.
Porque teu é o reino, o poder e a glória para sempre
Estou devendo esse comentário final sobre a oração de Jesus, e vou ficar devendo por alguns dias, ainda. Fiz consulta a respeito dele a um biblsta, para ter informações sobre a ausência dessa doxologia em alguns textos. Enquanto isso, pularemos para Isaías, com seus textos eloquentes.
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